Não admira que essa abstracção encantadora seduzisse tão completamente o nosso pobre príncipe.[86]

Os que falavam com êle íntimamente percebiam sem custo o doloroso desdem que as coisas da sua terra, voltadas, desde a morte de Pombal, ao antigo estado, lhe produziam no cultivado espírito.

Pensava em libertar o seu país e a sua raça do jugo de um fanatismo esterilizante, reflectido nas ideas e nos factos, desde a religião até à economia, mas a morte, que teimou em prostrá-lo na flor dos anos, não lhe deixou pôr em execução os seus projectos grandiosos, poupando-o à triste decepção que aguarda todos os que julgam opôr eficazmente a vontade individual ao fatalismo irredutível das correntes históricas promanadas de remota origem. Assim tambêm o doce visionário que se chamou Pedro V. morreu antes de ter cumprido as esperanças que sôbre êle edificara esta nação messiânica, que há tanto tempo espera debalde por um salvador providencial...


A morte do príncipe do Brasil, causada por um ataque de bexigas, as quais, segundo então se murmurou, não foram logo cuidadosamente tratadas, mais contribuiu ainda para lançar o espírito da já alucinada rainha num inferno de agonias. O príncipe tinha o seu partido na côrte, mas tinha tambêm contra si tôda a côrte magna dos conservadores, dos reaccionários, dos fanáticos que tremiam do seu espírito de iniciativa, da sua alta concepção da política de um povo, da sua preocupação do ensino civilista e da administração, de tudo que fazia dêle a antítese da rotina pachorrenta, que era o lema da sua côrte.

Não pode dizer-se que houvesse crime na sua morte, mas há quem assegure que não houve tanta solicitude no tratamento da doença quanta seria necessária para salvar esta vida preciosa.

Entre os que faziam oposição às tendências anti-jesuíticas, e às aspirações generosas e liberais do príncipe D. José, avulta uma das figuras mais pitorescas da côrte de D. Maria I, o seu confessor, fr. Inácio de S. Caetano, mais conhecido pela dignidade de arcebispo de Tessalónica.

Começara por jornaleiro, assentou praça de soldado, e foi cabo de infantaria em Chaves; dalí vestiu a estamenha fradesca, e, feitos os votos, cursou o que então se chamavam as artes no colégio de Nossa Senhora dos Remédios, em Évora, onde florescia, em todo o seu falso esplendor, a filosofia desnaturadamente apelidada de aristotélica.

Não era, pois, inteiramente analfabeto, como teem querido dizer, êsse frade obeso, jovial, de óptimo humor, que o marquês de Pombal julgou suficientemente inofensivo para fazer dêle o confessor da então princesa D. Maria. Logo que esta subiu ao trono, fr. Inácio foi elevado à dignidade arqui-episcopal, à de grande inquisidor e principalmente à de primeira influência no govêrno.

Acusam-no os que então o viram de perto—e é um dêles o observador irlandês a que mais de uma vez nos temos socorrido pela sua ampla informação, e pela sua mordacidade inteligente—de parecer engordar, e farto e satisfeito, no meio dos desastres da nação que os bons patriotas julgavam ameaçada de tornar breve a ser uma província de Espanha.