Assim o vimos recentemente num exemplo famoso, e as leis da história variam pouco nas suas conseqùências e na sua marcha. Tambêm Guilherme II era discípulo e querido discípulo de Bismarck, e sabemos como êle tratou o grande chanceler da Alemanha unificada e poderosa.
Não se pode, porêm, saber ao certo se esta idea germinou no espírito do marquês de Pombal, ou se gratuitamente lhe foi atribuída pelos seus inimigos, para mais o indisporem com a rainha D. Maria I. O que se pode afirmar é que Pombal tinha comunicado ao príncipe do Brasil os seus dois ódios dominantes, as duas paixões supremas, que moveram tôda a sua política: o ódio ao inglês e o ódio ao jesuíta. Êle sabia que a manha subtil e insinuante de um, e a fôrça brutal e triunfante de outro tinham de minar e destruir esta fraca nação.
Inspirara-lhe igualmente o seu amor ao progresso material, e a sua repugnância pela educação fradesca, que punha Portugal a cem léguas de atrazo em relação às outras nações europeias.
Afastado dos negócios o grande ministro de D. José, o príncipe do Brasil via com desespêro curvada de novo em atitude de abjecta subserviência, diante do gabinete inglês a côrte de sua mãe.
O objecto da sua grande admiração era José II, imperador da Áustria, com quem se correspondia através do duque de Lafões. Êste, durante a sua longa permanência em Viana, privara íntimamente com o imperador e com os primeiros personagens da sua luzida côrte, uma das mais namoradas de arte que ainda brilharam no mundo.
O que o príncipe do Brasil mais admirava em José II era a sua concepção moderna, civilista e centralizadora do Estado, eram as suas reformas eclesiásticas e pedagógicas, empreendidas e realizadas contra o que êle, imperador, classificava nas suas cartas como a dominação dos fakirs e dos ullemas, e tendo por fim roubar à tríbu de Levi o monopólio da inteligência humana[84]; era o seu combate eficaz contra o ultramontanismo, contra os abusos de autoridade das congregações religiosas, emfim, o seu amor da liberdade religiosa e do progresso industrial, tão raros num soberano.
Vendo a natureza ociosa e a fradaria estulta, que ambos tinham concluído a sua missão histórica, e que, portanto, só podiam ser um tropêço e um obstáculo, manterem êste pobre país na ignorância e na inércia, vendo a nossa inferioridade militar, que êle se não cansava de atribuir à dominação do clero, fatalmente debilitadora da energia de uma raça, outrora heróica, o príncipe do Brasil sonhava com uma transformação tão radical no sentido religioso, social e económico, como essa a que o imperador austríaco estava sujeitando o amálgama de povos que constituiam o seu vasto e desordenado império, que antes dêle se tornara um verdadeiro Estado teocrático à moda antiga.[85]
Não é que José II fôsse um liberal no sentido moderno da palavra. O século XVIII não teve príncipes liberais. Nem José II, nem Frederico da Prússia, nem Catarina o foram. Foi, porêm, o século em que os imperantes tentaram introduzir reformas radicais na administração dos respectivos Estados, usando, para estabelecer essas reformas revolucionárias, das armas que o absolutismo levado aos seus extremos limites lhes fornecia a todos. A rápida reacção que no espírito de uns se operou, a inutilidade dos esforços dos outros, a tempestade medonha que a boa vontade da maior parte desencadeou na Europa, mais uma vez vieram confirmar a lei moral de que no mundo é indispensável a harmonia entre os meios e os fins, e a lei histórica de que não pode vingar nem frutificar pacíficamente uma revolução vinda de cima.
A crise por que então passou o mundo para que nêle florescesse a liberdade política é a mesma, pouco mais ou menos, que hoje atravessamos para que se melhorem e modifiquem as condições económicas do maior número. E assim como então havia reis e imperadores filósofos, que queriam dar à burguesia como um favor outorgado, o que ela exigia como um direito irrefragável, assim hoje há, no ápice do edifício social o papa, e mais abaixo os estados e soberanos, que querem atender ao mal-estar das classes desvalidas, e conceder-lhes como regalias aquilo que êles proclamam como imprescritível obrigação. Nem a burguesia do século XVIII nem o quarto estado do século XIX aceitam o favor partindo de cima. Uma conquistou o seu lugar; o outro conquistá-lo há mais tarde, e muito sangue e muitas catástrofes individuais e colectivas foram e serão o preço doloroso da conquista. Será amanhã inútil a intervenção dos poderes estabelecidos, como foi então efémera a obra revolucionária dos reis, como José e Frederico, e de ministros como Pombal.
Do programa de José II, que tanto cativara o nosso príncipe do Brasil, se disse que era a antecipação de tudo que mais tarde e durante a Revolução fêz a assemblea constituinte. É que tanto a França de 1789 como o imperador da Áustria obedeciam ao mesmo ideal de razão pura, proclamado pela filosofia do século.