É ainda a Costigan que vamos pedir a descrição do marido que a política portuguesa impôs à desventurada mulher. «Ao pé de D. Pedro III, diz o espirituoso observador irlandês, o próprio rei Carlos III de Espanha, tão célebre pela fealdade, pode ser considerado um verdadeiro Adonis. O desalinhado aspecto da cabeleira loura sempre à banda, o olhar azul claro, parado e estúpido, as feições ásperas, grosseiras e desarmónicas, tudo lhe dava o estonteado aspecto—a êle, coitado, que nem vinho provava—de um velho inglês vencido pela quási completa ebriedade.»[82]

Vivia, de resto, a rezar, encerrado na sua devoção estreita, formalista, sem generosidade e sem ideal, como uma ostra na sua rude concha.

Não tinha mesmo sequer uma hora para se informar acêrca das coisas públicas, que não perceberia, é certo, pois que todo o seu dia se passava no seu oratório particular, na capela ou nas festas religiosas, que em Portugal ostentavam naquele tempo o maior luzimento e a mais soberba pompa. Eram elas o assombro dos viajantes estrangeiros, ainda os mais cultos e bem informados, que nem no Vaticano tinham visto coisa que se comparasse à beleza, majestade e perfeição com que na capela da rainha se executavam as músicas de Jomelli, de Perez, de Haydn e de outros mestres igualmente célebres.[83]

Quando el-rei acordava dêsse estranho sonambulismo místico, em que a existência se lhe esvaía, tinha a mais puéril credulidade para tudo que lhe diziam os homens da nobreza que o cercavam e que eram os chefes da aristocracia.

O abade Garnier, cura da igreja de S. Luís, que então vivia em Lisboa, e cujas cartas interceptadas no Gabinete da abertura são fonte preciosa de informação acêrca dos acontecimentos contemporâneos, pois que o abade tinha a aguda faculdade observadora peculiar ao seu estudo, diz acêrca de D. Pedro III isto mesmo, acrescentando que a rainha, cujo espírito é muito justo, mais circunspecta nas suas falas, mais moderada, mais prudente e esclarecida nas suas opiniões, não se deixa tão fácilmente arrastar pelo que ouve em tôrno de si aos interesseiros áulicos, que, não podendo convencè-la, por isso mesmo a enlouqueceram. O duque de Châtelet, êsse julga D. Pedro devoto até ao fanatismo; sombrio e silencioso, constantemente ocupado em preces e procissões.

Como é, pois, que tal rei podia ser um conselheiro eficaz e razoável para a consciência tímida, nutrida de escrúpulos devotos e alanceantes da infeliz filha de D. José I?!

Ao pé da rainha e do rei, de quem esboçámos os liniamentos vagos, aparece uma formosa figura que a morte espreita já, com a caprichosa preferência que a tem quási sempre atraído para os primogénitos de Bragança.

É a figura do príncipe do Brasil, D. José. O marquês de Pombal estremecia e educara políticamente êste môço, em quem antevia porventura o continuador enérgico e eficaz da obra que êle sonhara, e da qual chegara a realizar as edificações fundamentais.

Dizia-se, e há cartas de Leonor de Almeida a seu pai, escritas de Chelas, que se referem com segurança a êste projecto, que a idea fixa do marquês de Pombal consistia em fazer promulgar em vida de D. José a lei sálica em Portugal, tornando nulos os direitos de D. Maria I, e determinando assim que ao rei, seu instrumento passivo, sucedesse o rei, seu discípulo inteligente.

É muito possível que, se tal houvesse sucedido, o primeiro acto do príncipe fôsse expedir de si o velho conselheiro de seu avô, o velho sustentáculo de uma política reformadora e enérgica. O marquês quereria continuar a dominar absolutamente, fazendo render o serviço feito; o juvenil monarca teria a natural sêde do mando, que é uma das mais nobres ambições viris, e o conflito não podia evitar-se entre ministro e rei.