Ouviam-na passar pelos vastos corredores do paço rompendo os ares desesperadamente com a sua queixa ululante, com o uivo trágico da sua loucura! Os gritos que ela soltava, agudos, dilacerantes, gritos de alma penada, que implora o fim da negra expiação, ecoavam lúgubremente pelas salas da Ajuda ou de Queluz.

Beckford, que lh’os ouviu, compara-os aos trágicos lamentos estrídulos que as abóbadas do castello de Berkeley repercutiram quando a Eduardo II foi infligida a mais crua e torturante das mortes.[80] Ai Jesus! Ai Jesus! gritava ela na amargura infinita da sua agonia, julgando ver do meio de uma chama enorme, que lhe incendiava o quarto, lambendo com milhares de línguas de púrpura a cama em que ela se debatia, surgir o pai tal como o representa a estátua no Terreiro do Paço, mas negro, calcinado, feito em carvão, emquanto uma multidão de fantasmas horrendamente desfigurados—os fantasmas de Belêm—o empurravam para baixo, para o inferno, para o eterno fogo que nunca se consome, para a chama perpétua que nunca se apaga.[81] Que trágicas visões shakespereanas as dessa pobre mulher fanática, instrumento e vítima dos reaccionários que a enlouqueceram! As suas noites sem sono ou cortadas de pesadelos atrocíssimos, as lutas acerbas da sua consciência sem bússola e solicitada ardentemente para contrários lados, as palavras cruéis dos seus conselheiros tão implacáveis no ódio, tão exigentes na vingança, as incertezas em que se debatia o seu obscuro entendimento, tudo faz dela a vítima expiatória de crimes cuja razão de Estado nunca chegou a penetrar.

O historiador alemão Henrique Schaeffer, a quem se deve uma das melhores histórias de Portugal que possuímos, o benévolo Beckford, que tão íntimamente simpatizou com a alma portuguesa, o maledicente mas penetrante Costigan, o duque de Châtelet, que na sua estada em Lisboa freqùentou o paço e conviveu com a gente mais grada da côrte, todos são unânimes no juízo favorável que acêrca da rainha formulam por bem diversas maneiras.

«A rainha, diz Châtelet, é uma mulher verdadeiramente digna de estima e respeito. Não possue, porêm, um só dos predicados que constituem uma grande rainha. Ninguêm é mais caridoso e mais compassivo do que ela. Mas estas excelentes qualidades são viciadas pela mal entendida e excessiva devoção. O confessor (seria sempre êle?) obriga-a a despender em devotos e penitentes exercícios o tempo que, sem dano da sua salvação, poderia consagrar à felicidade dos seus povos.»

Escrevendo isto o duque de Châtelet não sabia que D. Maria I, a infeliz e trágica rainha, quando passava assim as horas prostrada ante o altar de Deus terrível, tinha como objecto único o alcançar à fôrça de orações ardentes, de humildes súplicas, de rezas intermináveis a salvação, não da sua própria alma, mas da alma dêsse pai que adorava, e que lhe pintavam como a presa dos castigos do Eterno. Em vão lhe diziam que era inexpiável o crime dêsse rei que perseguira os servos da Igreja e os grandes vassalos da monarquia; ela, piedosa e doce mulher, teimava em persuadir-se, embora pouco ortodoxamente, de que as sentenças vingadoras e implacáveis do Deus de Israel se podem temperar pela ternura humilde das nossas súplicas e pela ardente e copiosa torrente das nossas lágrimas; que a chama deslumbradora e terrível do Sinai se volvera, para nós, cristãos no dolente e inefável espectáculo dos suplícios do Calvário!

Por isso chorava e rezava continuamente nos degraus do altar, pedindo a Deus o perdão do pai que tanto amara, do pai em quem não queria nem podia ver um condenado sem esperança.

«A misericórdia e a justiça, dizia Beckford, que são o lema com tanta impropriedade escrito na bandeira do santo ofício, poderiam aplicar-se com verdade irrefragável a esta princesa boa e virtuosa.»

A decent fresh looking woman, chamava-lhe Costigan, o menos cortesão de todos. Pois até essa frescura física murchou, desapareceu no combate interno em que a razão da infeliz rainha sossobrou finalmente.


Aquele que podia ser seu guia moral, seu companheiro e seu amparo, não passava de uma das mais grotescas se não da mais grotesca figura da sua côrte.