Tancredo era no fim de contas um mediano herói!
Maria de Almeida, essa, como dissemos, casou. Nas raras cartas dela que temos à vista, respira-se, a par de uma elegância e de uma graça feminina verdadeiramente encantadoras, a melancolia dolente e vaga da alma que se sente ferida na mais delicada e secreta fibra das suas asas. Morreu môça, mas estremecida pelos que a conheceram. Leonor tem lamentos inconsoláveis na sua musa um pouco ingrata para lhe chorar a morte prematura. Não era feliz, dizia ela com resignação suavíssima talvez lembrada das quimeras da sua poética mocidade; mas consolavam-na a música, os versos e os filhinhos que deixou na primeira infância.
A sua voz era famosa nas salas de Lisboa, os seus versos são celebrados por Filinto, para quem ela é a formosa Daphne. Desta figura inteiramente ignorada pela história, apenas entrevista pela crónica do seu tempo, ressalta para nós, que lográmos através das suas cartas conhecê-la um pouco, um encanto estranho, uma doçura indizível, como que um pertinaz aroma de graça aérea e casta.
Na nossa infatigável busca de documentos que nos fizessem penetrar na intimidade de Leonor de Almeida, topámos, sem querer, com êste pobre idílio ignorado, cujo remate é de uma tão insondável e silenciosa tristeza!...
Que nos seja perdoado o termo-nos demorado respirando o perfume que dêle se exala, como de uma violeta esquecida entre as fôlhas de velino de um livro de orações.
Dissemos que freqùentavam a casa de Alorna as figuras principais da côrte. É azado, portanto, o ensejo para fazer uma rápida resenha dessa côrte ainda fulgurante, ainda opulenta, e que foi a última digna dêsse nome, a um tempo ôco e brilhante, que nós possuímos.
Não era bela a rainha que lhe presidia, mas um viajante inglês, tão admirável observador como Horácio Walpole e tão fino dilettante como êste, que ao tempo estava em Lisboa, declarava que era verdadeiramente impressionadora a gentil majestade do seu porte, a nobre expressão bondosa e ao mesmo tempo imperativa da sua fisionomia.
De entendimento limitado e educação deplorávelmente defeituosa, essa pobre rainha foi uma mártir do seu alto destino. Nascera para ser uma excelente e cuidadosa espôsa e mãe; teve de governar, em crise de transição tempestuosa e difícil, um país na sua generalidade ainda meio bárbaro.
De um lado a piedade filial, que foi nela uma virtude acrisolada, ordenava-lhe que respeitasse absolutamente as decisões, por violentas que fôssem, com que D. José assinalou o seu reinado enérgico; por outro lado uma reacção desenfreada, tomando as aparências de justiça, e usando das armas que a Igreja põe na mão dos seus ministros, impelia-a para o caminho da mais irreverente demolição de todo o reinado precedente. Persuadiam-na a que castigasse aqueles que o pai tinha amado; que reabilitasse os que o pai considerou como seus assassinos; que desfizesse as sentenças que o pai confirmara; e ora lhe pintavam com vivas côres o rei que a antecedeu a arder nas chamas do inferno, pelo mal que tinha feito à fidalguia e aos ministros da Igreja, ora lhe representavam com côres não menos vivas a sua futura condenação a penas iguais, se não desfazia tôda a obra iníqua, ideada por Pombal, e que D. José deixara executar. Esta luta foi dolorosa, foi cruel demais para o cérebro fraco da infeliz rainha. Endoideceu!