Ou nas rochas de Almada os céus estudas.

Lá, combatendo a turba de incertezas,

Ignorado, a teus pés vês os sistemas

Que a Newton e a Descartes deram fama.


Quando o marquês permanecia algum tempo em Lisboa, não deixavam de concorrer às suas salas as figuras mais notáveis da côrte de D. Maria I, que, por aliança ou parentesco, estavam tôdas estreitamente ligadas com a ilustre casa de Alorna. Visitavam-no tambêm com freqùência os estrangeiros famosos que por aqui passavam, e os diplomatas que aqui representavam suas respectivas côrtes. Só infelizmente não brilhava entre os freqùentadores dêsses saraus elegantes e falados por tanta maneira o infeliz que havia sido noivo de D. Maria de Almeida. É para nós, cronista, um verdadeiro enigma esta espécie de abandôno em que D. Martinho se deixou subverter. Como pode conciliar-se a amizade que o marquês de Alorna lhe votava, o seu porfiado interêsse em salvá-lo, com a resolução que o levou a conceder a mão de Maria, a prometida noiva do ex-marquês de Gouveia, ao conde da Ribeira Grande?

É bem provável que a irmã de Leonor, em quem as mais doces virtudes da alma feminina—a piedade e o desinterêsse—parecem ter florescido suavemente, quisesse ser fiel no desamparo e na miséria áquele que lhe tinham permitido que amasse, quando havia a fundada esperança de que a corôa de noivado por êle oferecida tivesse o esplendor soberbo de uma corôa ducal. Mas fôsse qual fôsse o motivo que actuou no ânimo do marquês de Alorna, o caso é que êle ajustou o casamento de sua filha com o conde da Ribeira Grande, e que Maria se submeteu em silêncio.

O romance daqueles puros amores foi cortado em flor, justamente na hora em que a figura, para nós apagada, quási indistinta de D. Martinho, devia tornar-se trágicamente interessante para uma mulher inteligente, romanesca e namorada.

O marquês de Gouveia desapareceu. Sumiu-se na onda negra da miséria. Diz Camilo Castelo Branco que o sustentou até 1804, data em que morreu numa humilde casinha de Buenos Aires, a bôlsa do conde de Óbidos, do próprio marquês de Alorna, e finalmente de D. João VI. Timbraram em socorrê-lo pecuniáriamente, livrando-lhe o corpo das agonias da fome, já que não podiam ou não queriam livrar-lhe a alma de angústias lancinantes com que a teimosa memória havia de inferná-la.

Educado, como o eram os fidalgos do seu tempo, na ignorância das coisas positivas e do trabalho redentor, o infeliz não soube reagir. Restavam-lhe três caminhos a seguir: o da revolta aberta contra a iniqùidade da instituìção que o esmagava; o do labor que o emancipasse das esmolas com que os da sua casta o manietaram e humilharam; ou o da abjecta submissão à injustiça que lhe faziam. Foi o terceiro que êle escolheu!