Em tôrno da família real e dos seus apêndices mais próximos, tais como o ministério, o confessor, etc., reùne-se uma côrte ainda brilhante, apesar dos golpes com que a mutilara a mão implacável do ministro de D.José.

Os duques de Lafões e de Cadaval, os marqueses de Angeja e de Marialva figuram entre os primeiros, e ao pé dêles enfileiravam-se opulentos titulares, marqueses, condes, viscondes na posse de gloriosos nomes tradicionais e representando todos antigas casas, ainda não decaídas da sua primitiva opulência e grandeza, e que contribuíam para dar à vida palaciana um tom de tradicional majestade hoje perdida.

Era celebrada a hospitalidade portuguesa mesmo entre os que mais acremente censuravam os nossos defeitos de raça.

A mesa do marquês de Marialva, um dos mais lindos tipos de fidalgo, um dos mais perfeitos exemplares da velha nobreza, espécie de patriarca universalmente querido e respeitado desde o paço real até à rua, e que durante o proconsulado pombalino fôra o desvelado protector de todos os fracos, logrando muitas vezes alcançar a clemência régia para os mais ameaçados pela cólera do ministro—à mesa do marquês de Marialva assentavam-se quotidianamente dezenas de convivas; das cozinhas do seu palácio saíam por dia trezentas rações distribuídas entre a plebe parasita da capital; o pátio cheio de seges, de estrume e de lacaios, lembrando, no dizer malicioso de Beckford, um pátio de mala-posta, conduzia ao célebre picadeiro, onde o velho marquês se divertia em assombrar os amigos com os prodígios da sua destra e famosa equitação.

Subia-se dalí para os vastos aposentos, onde uma quantidade enorme de relógios—engraçada mania do marquês—marcavam em gentis minuetes, ou em figurações engenhosas, as horas que iam passando alegremente, ora a ver as curiosidades da Índia e da Itália, que cobriam as mesas ricamente envolvidas em damasco e veludo vermelho, ora a escutar as agudas notas da voz de Policarpo, um dos primeiros tenores da capela da rainha, que se acompanhava a si próprio tocando harpa, e que deliciava os ouvintes com essa arte admirável, que foi o culto artístico, quási exclusivo, do nosso século XVIII.

De vez em quando uma porta que se abria, logo fechada, deixava entrar nas salas interiores uma adorável figura de mulher, de olhos lânguidos e feiticeiros, olhos de portuguesa a quem um grupo de crianças cercavam como grinaldas de flores vivas, e que trazia à memória do erudito estrangeiro, que porventura a lobrigava rápidamente, uma esplêndida alegoria de Rubens ou de Veronese.[88]

Para a grande sala dos banquetes em dia de mais pomposo ceremonial as pesadas travessas de prata cinzelada, em que lourejam os leitões e as grandes peças de caça, são trazidas por um longo séquito de escudeiros e de capelães, no peito de muitos dos quais brilha a cruz de Cristo ou de Aviz.[89] Êste modo de ser servido à mesa tem um ar inteiramente feudal, e transporta a imaginação dos estrangeiros para os dias do passado, em que os chefes guerreiros são servidos como reis pelos nobres seus vassalos.

Um dia, no fim de um dêsses banquetes a que se assenta um grupo da mais fina flor da nobreza de Portugal, correm todos a ouvir um missionário que reconta terríveis milagres em que a cólera de Deus e a sua vingança se manifestam medonhamente. A marquesa, os filhos e as filhas escutam com ansiosa avidez a história milagrosa e terrível. A noite vem caindo lentamente. Ninguêm se atreve a pedir luz, e a voz do missionário continua trágica, cavernosa, falando das cóleras divinas e dos tremendos castigos do Eterno... Assim o banquete da vida portuguesa, de uma tão naturalista alegria, foi interrompido pela aparição do lívido fanatismo, e o seu riso de caveira paralizou tôdas as nossas energias, e o seu sôpro esterilizador queimou a vasta seara das nossas esperanças, que verdejava ao sol de Deus.