Com essa tremenda superstição das coisas sacras, que tão funesta impressão exerceu no espírito da nossa raça, conciliava muita vez a fidalguia não só os mais soltos costumes, mas tambêm o mais risonho paganismo cristão, e o mais desenfreado carnaval de alegria. E senão vejamos esta scena característica.
Pelos terraços do palácio Marialva, onde metade da família está ocupada em rezar ladaínhas e terços, e outra metade em tocar à guitarra as voluptuosas modinhas que Beckford adorava, brilha de repente a luz trémula e fugaz dos archotes e das lanternas.
Ouve-se a bulha dos remos caindo na água perto das varandas que dão sôbre o Tejo e de um escaler de cincoenta remadores que aproa ao cais, sái o velho fidalgo acompanhado do filho D. José e seguido por uma multidão estranha e pitoresca de músicos, de poetas, de toureiros, de lacaios, de frades, de anões, de negros, de crianças de ambos os sexos fantásticamente vestidas.
Vem de uma romaria ao altar de um santo que fica da outra banda do Tejo. Rompe a marcha um corcundinha anão soprando uma minúscula trombeta; ao corcunda segue-se um figurão alto, velho, desasado, gingão, que se pavoneia muito contente no seu uniforme vistoso, e que já, em não sei qual ilha remota, fêz o papel de governador. Um frade de catadura feroz, mais alto do que Sansão, dois capuchinhos carregados com cestos enormes de misteriosas provisões vem logo atrás. Aparecem em seguida dois tipos não menos característicos: um boticário esguio, esgrouviado, esquálido, cadavérico e trajando luto pesado; e uma espécie de improvisador meio pateta, o bobo indispensável ao fidalgo português, que atira versos destemperados e quadras sem nexo aos curiosos que acodem de dentro do palácio às varandas para assistirem ao desfilar da estranha, da pitoresca procissão, cuja rectaguarda é ainda composta da turbamulta gritadora dos barqueiros e dos criados, acarretando gaiolas de pássaros, lanternas, cestos de fruta, ramos de flores, não sabemos que mais!
Vê-se bem que vida intensa, ainda então peculiar à raça portuguesa, apesar de tôda a sua triste decadência, se traduzia neste voltar da festa tão pitoresco, tão alegre e tão doidamente ruidoso!
Ao lado desta casa de fidalgo português, em quem as tradições antigas teem uma preponderância acentuada, os Penalvas, mais cultos, mais letrados, dão às suas festas um cunho de arte cosmopolita.
Na capela tocam-se as músicas mais escolhidas; na livraria aberta ostentam-se as mais raras e mais antigas edições de clássicos portugueses e antigos; quadros das escolas italiana e flamenga enchem as paredes dos vastos salões; flores exóticas e flores dos nossos jardins enfeitam os vasos antigos da Índia e do Japão; as senhoras não aparecem, é certo, mas os académicos, os artistas de mais nota, as ilustrações de todo o género, trocam ali, em conversação animada, ideas que veem lá de fora e começam a cativar os espíritos mais cultos da nação.
No meio da festa, em que fraternizam os homens da inteligência e os homens da nobreza, sob o teto hospitaleiro dos marqueses de Penalva, travam-se aqui e ali conversações parciais, confidências a meia voz...
O conde de S. Lourenço conta animadamente a sua viagem à Itália, as impressões de arte que ali colheu, os cardiais com quem conversou...