O estrangeiro, que atentamente o escuta, mal sabe que a longa clausura da Junqueira determinou no cérebro do nobre prisioneiro a alucinação que consiste em julgar ter vivido uma vida inteira cheia de viagens, de sensações, de prazeres completamente imaginários... Passa d’ali para narrar a sua estada no congresso de Aix la Chapelle, a missão que ali representou... As palavras do alucinado fidalgo excitam um movimento de simpatia piedosa em quem o escuta. Foram os tratos da prisão que lhe causaram aquela estranha perturbação mental.

O cérebro sofre, o orgulho, o belo orgulho da raça, êsse ninguêm lh’o pôde amortecer! Há poucos dias atirou para o lugar mais recôndito e mais secreto do paço com a sua chave de camarista, julgando-se mal recebido pela rainha. Não é vulgar tamanho desprendimento nesse tempo de vil subserviência ao capricho do monarca.

O conde de Vila Nova, futuro marquês de Abrantes, tem como S. Lourenço uma mania, mas muito menos interessante.

O seu gôsto mais violento consiste em vestir opa vermelha e andar atrás do Santíssimo, de campaínha na mão. Não há namorado tão cioso da sua bela como Vila Nova da sua campaínha.[90] Não admite que outro lhe toque, que mão profana a faça vibrar. As paróquias que cercam o seu palácio nunca deixam que o sagrado viático seja conduzido a qualquer enfêrmo sem prévio aviso feito a Vila Nova, que abala pressuroso a empunhar a vibrante campaínha. E agita-a cheio de convicção, ou seja noite alta, ou faça frio de gelar os ossos ao mais intrépido, ou caia pino sôbre a cabeça dos transeuntes o sol do nosso ardente meio dia de Julho, ou êle tenha de subir aos últimos andares de um miserável casebre, ou de descer ao covil subterrâneo da mais imunda miséria.

Ali, no meio da festa, Vila Nova volta ansiosamente a cabeça a cada movimento desusado com receio de que hesitem em transmitir-lhe o aviso que porventura lhe seja enviado das duas ou três paróquias de que êle é humilde servo e sacristão oficioso.

Quem é aquele velho elegante, afectado, garrido, com ademanes e donaires de pisa-flôres, carmim nas faces e môscas sublinhando o sorriso inteligente e o agudo olhar brilhante?...

É o duque de Lafões, o fundador da nossa academia, um tipo de grand seigneur cosmopolita—à maneira do príncipe de Ligne, seu contemporâneo e de certo seu amigo,—que durante o reinado de D. José se conservara longe de Portugal, viajando na Europa, brilhando nas côrtes de Versailles e de Vienna, conhecido de tôda a alta sociedade europeia como duque ou príncipe de Bragança, convivendo com reis e com poetas, com artistas e príncipes, com homens de gôsto e homens de Estado, com dandys e com pensadores...

Para se saber como êle patrocina as artes basta apontar o que êle foi entre nós para o abade Correia da Serra e mais colegas seus da academia; o que foi em Vienna para o nosso abade Costa, de que mais tarde falaremos, e para Gluck, o famoso compositor, o carácter intratável que lhe consagra a partitura da sua ópera Helena e Páris com uma dedicatória, que faz tanta honra à fina inteligência aberta e penetrante do duque, apta a compreender e estudar estas questões de arte de uma subtileza tão delicada, como ao grande artista que nela formula todo um programa de estética hoje realizado e então entrevisto apenas.

Citarei algumas palavras dessa dedicatória:

Queixando-se da incompetência e da audácia da crítica do tempo que condena o método do compositor sem sequer se penetrar dos princípios que a êle presidem, Gluck conclúe dêste modo: