«Julgaram-se autorizados a pronunciar-se acêrca de Alceste depois de ensaios mal dirigidos e pior executados; calcularam numa sala o efeito que a ópera produziria num teatro; é com a mesma sagacidade que em uma cidade da Grécia quiseram noutro tempo julgar a alguns passos de distância o efeito de estátuas esculpidas para serem colocadas sôbre colunas altíssimas.

«Um dêsses delicados amadores que concentram a alma inteira nos ouvidos achou uma ária demasiado áspera, um trecho em extremo acentuado ou mal preparado sem conhecer que, dentro da situação em que estava essa ária, êsse trecho era o sublime de expressão e formava o mais feliz contraste. Um harmonista pedante nota uma negligência engenhosa ou um êrro de impressão, e apressa-se em denunciar um e outro como pecados irremissíveis contra os mistérios da harmonia...

«É certo que não são mais felizes as outras artes, o que não é para elas a crítica nem mais justa, nem mais esclarecida. Vossa Alteza adivinha fácilmente a a razão disto. Quanto mais se procura conscienciosamente a perfeição e a verdade mais necessárias se tornam na arte a precisão e a exactidão...»

Vê-se por êste rápido trecho, que não amplificámos mais por não ser o ensejo oportuno, como, entre o duque e o grande mestre revolucionário, deviam ser freqùentes e familiares as relações artísticas; vê-se como o maestro confia na inteligência crítica do fidalgo, e que estreita comunhão de ideais havia entre um e outro.[91]

O duque voltara a Portugal depois de ter saboreado lá fora o que tinha de mais requintado a civilização e a alta cultura das primeiras capitais do mundo. Tentara transplantar para aqui alguma coisa do muito que admirara e vira, e de feito é a êle que se deve a fundação da academia e a protecção generosa e inteligente aos trabalhos de naturalistas e de sábios seus contemporâneos.

Ao lado desta figura de uma tão alta e tão refinada elegância, que pode bem equiparar-se à de um Richelieu, à de um príncipe de Ligne, à de um dos muitos que lá fora reùniam aos privilégios herdados do nascimento as graças adquiridas numa cultura variadíssima e numa educação dada pelos centros mais esplêndidos da vida intelectual—a sociedade portuguesa do tempo oferece-nos uma infinidade de outras figuras secundárias que se destacam ou pelo ridículo ou pelas afectações características do seu papel social.

Monsenhor de Aguilar, cónego da patriarcal, um personagem do tempo, aparece saltitante, chilreador, e murmurando a ouvidos indulgentes segredos voltaireanos contra a Igreja católica, de que vive e que explora.[92]

A influência fradesca imprimia em Portugal o sêlo da ignorância beata... A plebe, dissoluta e soez, adorava as procissões que contentavam as suas moderadas exigências estéticas e religiosas, e acudia fremente e doida de entusiasmo às touradas, onde o seu amor, o seu culto da fôrça, era brutalmente acariciado. Não precisava de mais nada para ser feliz.

A nobreza, essa, livre do jugo de Pombal, reassumiu a arrogância antiga, governava no paço e nas secretarias do Estado, cuidava em manter o povo na ignorância que o tinha curvo, submisso diante dos seus abusos e caprichos, e discutia sériamente os milagres de vários santos, e as tricas engenhosas de Belzebuth...

Beckford a propósito conta a história da conversão de uma velha inglesa tísica, cujo corpo é levado à sepultura pelas mãos patrícias de Assecas, S. Lourenço, Marialvas, etc., todos extasiados pelo milagre dessa conversão inesperada, emquanto Acciaoli, o núncio, esfrega as mãos de contente, dá estalinhos com os dedos, e faz figas ao Diabo, lançando-lhe em rosto o roubo da alma da velha inglesa que o cão tinhoso já julgava ter nas garras... «Feliz inglesa! exclama um dos do nobre séquito. No outro mundo teve entrada no paraíso, e neste teve a subida honra de ser levada à cova por homens da alta nobreza! Onde houve já ventura assim?»