É verdade que debaixo desta fraseologia ôca e piegas, a história secreta tem mil anedotas típicas dos costumes do tempo que não condizem com tamanho zêlo pelo culto sagrado... Mas a Igreja é cheia de mansidão e indulgência; os mosteiros, como o de Alcobaça e outros, regorgitam de quanto a abundância tem de mais pantagruélico, e a sciência da vida de mais requintado e cómodo...

Não há onde melhor se coma e onde mais voluptuosamente se saboreie o lado material da existência que nesses retiros em que a carne devia ter-se espiritualizado até ao renunciamento absoluto e ao sacrifício supremo de tudo. Tanto o contraste entre o que se pratica e o que se prega é frisante naquela época...

O padre Teodoro de Almeida revira os olhos, faz esgares hipócritas e visagens devotas, e pronuncia discursos seráficos que o inglês, um pouco scéptico, de onde colhemos estes quadros, classifica de first rate of hypocritical cant.

Não é possível nomear cada uma das figuras que desfilam diante do nosso olhar, fotografadas em flagrante realidade pelos observadores do tempo. São os aduladores flexíveis, subtis, maleáveis, com meneios de reptil e graças serpentinas; é a anãsinha Rosa, garrida e sentimental, acompanhando a rainha, que morre por ela, para todos os lados e fazendo parte integrante da côrte que não ousa rir-se daquela anomalia; é o bobo João da Falperra, esgueirando-se hábilmente por tôdas as portas que encontra abertas, e inspirando ao conhecido leigo do arcebispo de Tessalónica, tão famoso pelos epigramas e agudezas, êste dito tambêm famoso:

«Na côrte penetram fácilmente homens de mérito superior, santos e bobos. Os primeiros desaprendem logo que tudo sabem; os santos fazem-se mártires; e os bobos são os que únicamente prosperam!»

Os fidalgos moços adoram a convivência do baixo povo, diante do qual se sentem à vontade, sem que a própria ignorância os humilhe. Há nas ruas de Lisboa serenatas e guitarradas, em que os filhos das primeiras casas acompanham os seus criados e os amigos dêstes; o conde de Vila Nova abre na noite de S. Pedro, à multidão da capital, os seus jardins iluminados com lanternas venezianas, e no baile que desenrola sob as árvores a sua desenfreada alegria, quermesse flamenga, os herdeiros de casas principescas misturam-se jovialmente com a escuma das Vielas e becos da cidade.[93]

É pitoresca, animada, caracteristicamente nacional esta vida, mas falta-lhe, a espiritualizá-la suavemente, a influência da mulher então menos que nula, e a cultura geral, que é deficiente e incompletíssima. Há homens de primeira classe, talvez, mas segue-se-lhes logo, sem intermédio algum, a massa ignorante e brutal onde não penetrara ainda um raio de luz civilizadora.


A castidade da rainha não permite que uma única mulher pise as tábuas do proscénio. Depois da quadra luxuosa e pomposíssima em que a história do teatro português, no dizer curiosamente documentado do eminente escritor Teófilo Braga, excede em grandeza a dos melhores teatros do mundo e tem ligados à sua fama os nomes dos mais célebres arquitectos, como Simão Caetano Nunes e Inácio de Oliveira; dos melhores pintores e scenógrafos, como Servandoni, disputado à côrte de Portugal pelas côrtes de França, Inglaterra e Polónia, Bibiena, Azzolini; de compositores como Cimarosa Paisiello, Piccini, Jomelli; de cantores como Caffarelli e Gizziello[94],—depois do curto mas extraordinário esplendor das representações da Ópera do Tejo ou Teatro dos Paços da Ribeira, reduzido a ruínas pelo terremoto no próprio ano em que D. José o tinha mandado executar pelos artistas mais brilhantes do tempo, e onde sob a direcção do maestro napolitano David Perez cantaram os Castrati mais célebres (um dos quais foi presenteado por el-rei, depois de executar uma cantata de Jomelli com uma galinha de oiro cercada de vinte e quatro pintainhos tambêm de oiro),—depois dêsse período de luxo, de extravagante luxo artístico, que tão pungente contraste faz com a miséria dos tempos e dos povos—o teatro nacional, sob o reinado de D. Maria, tem apenas para encarnar as suas criações mais ideais alentados mocetões de faces azues, de barba, que declamam em grossa voz avinhada as suas queixas de amores ou cantam em antipático falsete as suas árias e motetes. Noiva gentilmente envolta em véus virginais, princeza viúva coberta de crepes do seu luto, joven namorada fugindo à cobiça de um velho tutor libidinoso, donzela de régio tronco perseguida pelo ódio de um tirano feroz, Andromaca ou Ifigénia, Zaira ou Inês de Castro, Medéa ou a Espôsa Perseana, tôdas as heroínas da tragédia ou do melodrama, da comédia ou da ópera teem fatalmente de ser representadas pelos mesmos latagões membrudos, de atlética musculatura e voz que em vão se esforça para ter notas aflautadas. A arte chegara a êste apuro lamentável, e depois de ter sido no tempo de D. João V e D. José decorativa, espectaculosa e cesarista, mais feita, é verdade, para o regalo dos sentidos do que para a educação da alma, ei-la que se tornava agora burlesca no aspecto e nas intenções...

Nos teatros da Rua dos Condes e do Salitre freqùentados pela alta aristocracia, e num dos quais a condessa de Pombeiro, loira, branca, diáfana, aparece uma noite, seguindo o exemplo que então davam a rainha e tôdas as damas du bel air, acompanhada por anãsinhas pretas, que no fundo do camarote sublinham com tregeitos e esgares cómicos, mais divertidos do que a peça, a mímica dos desgraçados actores, e dão uma espécie de scenário africano à beleza do norte, aérea e fina da juvenil patrícia portuguesa[95]; nos teatros da Rua dos Condes e do Salitre representam-se longas trági-comedias arregladas do italiano e do francês, entremezes tambêm copiados ou traduzidos—perdida a tradição do teatro admirável de Gil Vicente e das farças e comédias do Judeu e de outros, em que a vida portuguesa se retrata como num espêlho ainda mal polido, mas já fiel em dar o contôrno e a expressão.