Acabaram as noites febris da Cecília Rosa, da Zamperini, das irmãs Pagnietti, da Todi, da Cecília Aguiar; a embezerrada melancolia beata dos régios personagens distinge em tudo, até no divertimento que mais devia popularizar-se, e do qual se podia fazer um elemento de educação e de civilização.

De vez em quando uma farça de Nicolau Luís os Maridos peraltas; o Viajante; uma comédia arranjada ou feita por Manuel de Figueiredo o Fidalgo da sua própria casa, o Dramático afinado, a Mulher que o não parece, Pássaro bisnau; um entremez anónimo, Fastásticas basófias, lograções e calotes de D. Harpia, as Desordens dos Paraltas, os Casadinhos, o Entremez da assembleia do Isque, de Leonardo Pimenta e Antas, e outras produções cómicas genuinamente nossas, conseguem arrancar da entristecida e degenerada alma popular uma forte explosão de riso alegre e sadio. Mas são raras e abandonadas pela fidalguia da côrte essas noites de gaudio plebeu e português de lei, em que aparece a punição risonha dos ridículos da moda, executada pelos cómicos que saíram do povo e que a êle pertencem como o excêntrico Nicolau Luís.

Nos teatros régios continua a tradição palaciana das óperas e oratórias, umas portuguesas, como Gli Orte Esperide, de Jerónimo Francisco de Lima, como Il Natali de Geove, de João Cordeiro da Silva, como Angélica, de João Cordeiro da Silva Carvalho, o mestre de Marcos Portugal, outras italianas, de Piccini e de Perez.

Nos outros teatros, a gravidade sonsa e mazorra da Arcádia impunha à paciência dos espectadores a longa e fastidiosa melopeia das tragédias, que a dúbia erudição de Francisco José Freire arranca à pobre e desfigurada antiguidade de que o seu século ignora completamente o espírito. É a Medea e o Edipo de Séneca, a Hecuba de Euripides, a Efigénia em Aulide, o Mitridates de Racine que Filinto traduz no seu português pedregoso e duríssimo, os Scitas e o Mafoma de Voltaire, e Alexandre na India, o Tamerlão na Pérsia, o Faramundo na Boémia, e as Rigorosas leis da amizade cumpridas em Olimpiade, de Metastásio, a Mais heróica virtude ou Zenobia em Arménia do mesmo, e Constantino o grande, ou a Ambição castigada por si mesma, e o Radamisto, de Crébillon, são dezenas de tragi-comédias, de tragédias, de melodramas, em que a nota do fastidioso predomina atrozmente, em que os costumes portugueses, a alma portuguesa, o passado português nunca ou raríssimas vezes transparecem.

O teatro italiano de Goldoni e Metastásio, o teatro francês do século XVII, Voltaire e Crébillon, a Grécia inteiramente desfigurada por traduções inábeis, eis o que alimenta o nosso teatro nacional, freqùentado pela fidalguia ou patrocinado pela realeza.


Eis aqui os traços gerais (em que a cronologia nem sempre é rigorosamente respeitada, mas cujo espírito nos parece verdadeiro, pois foi colhido com escrúpulo nos documentos do tempo) da sociedade que Leonor de Almeida conheceu e teve de aceitar ao sair do tranqùilo remanso de Chelas e da paragem deliciosa de Almeirim. E esta sociedade com os seus efeitos de luz e sombra, os seus tons brutais, a sua separação completa entre os gostos íntimos e as representações oficiais que a arte traduz, os seus preconceitos esmagadores, a sua ignorância profunda, que a surpreendeu, e que decerto lhe desagradou irresistívelmente. ¿Que lugar tinha ela, a erudita, a elegante poetisa nesse meio em que alguns homens apenas destacavam, e em que Bocage ia aparecer como um fenómeno imprevisto, de que Filinto fugira indignado, em que a inteligência tinha apenas um papel secundário, ou quando muito ociosamente decorativo? Não lhe era permitido sequer dizer o que pensava, porque o seu tempo estava justamente naquela transição crítica e perigosa em que a hipocrisia se alia ao fanatismo, e em que a palavra serve apenas para ocultar o que o espírito cogita... As amigas afastavam-se porventura assustadas, humilhadas, daquela mulher viril que bebera nas dores nobremente suportadas a sciência amarga da vida, e que amando com entusiasmo os prazeres do espírito não pode, por mais que nisso empregue patéticos esforços, subordinar-se a um meio de estupidez ou de futilidade.

Cada frase de Leonor era um conceito, e o chilrear inocente e pueril de crianças que não sabiam o que era sofrer, lutar, dominar-se e vencer-se, não podia de certo agradar ao seu entendimento viril e profundamente cultivado.

Os homens—tão inferiores a ela pela inteligência, pela instrução, pela energia antiga—olhavam-na sorrindo com êsse sorriso insuportávelmente complacente, que êles se dignam opor ao mistério irritante de um grande espírito de mulher.

Achavam-na provávelmente deslocada no seu país e no seu tempo, e riam-se dela, raivosos de a não poderem desprezar...