O pai olhava-a inquieto, divergente de cada uma das suas opiniões avançadas e ardentemente expostas com aquele calor que as suas cartas manifestam, menos terno do que fôra na ausência, menos admirador do que o deixava entrever nas frases escritas que ela relembrava com saudade.

¿Onde é que estavam as queridas ilusões que Leonor com tanto amor nutrira? Que pena para o observador e para o moralista, que ela não tenha deixado num jornal, como então tantas mulheres escreviam em França, numa correspondência como as que tornam imortais tantos nomes femininos que de outro modo a obscuridade subvertera—que pena que ela não nos tenha deixado a confidência das amarguras que nessa crise da vida a sua alma suportou! Há um jornal publicado muito recentemente por uma jovem artista russa, morta na flor da vida, que exprime com extraordinária intensidade essa dor singular da mulher em completa desarmonia com o seu destino, com o seu meio, com o tempo em que vive!

Essas agonias requintadas que tão poucas teem sofrido, e que só uma aristocracia diminuta de almas femininas pode experimentar, Leonor de Almeida sofreu-as em viril silêncio estóico! Apenas percorrendo os versos que ela fêz depois de sair de Chelas, de certo antes de casar (é deficientíssima em datas e esclarecimentos cronológicos a edição das obras da marquesa), encontramos nêles um eco da profunda melancolia que a devora. Mas são tão pouco simples os versos daquele tempo, é tão exagerada e tão artificial qualquer das suas formas, que essa expressão de tristeza não conseguira comover-nos se a não a relacionássemos com verdadeiras dores suportadas nesse período pela alma de Leonor de Almeida.

É tão cortado de desilusões o presente que ela sonhara feliz até ao êxtase, até ao arrebatamento, que a poetisa tem saudades das tristezas de Chelas; ao menos a essas doirava-as a divina esperança, fada da mentira, cuja missão é enganar-nos sempre, amolecendo-nos a alma, roubando-nos a viril coragem do desespêro absoluto:

Ideias minhas, multidão de ideias,

Que algum dia da cítara eu fiava.

Vinde trazer-me as horas que eu passava

Ao som de menos ríspidas cadeias.

Bem que tristes, de paz as horas cheias

Saturno no seu corpo as sepultava