Que o progresso do tempo traz mudanças,
E que alegria é sempre mal segura.
Troco assuntos ditosos, por lembranças,
Basta a meus hinos glória sem ventura,
Honra, virtude e murchas esperanças.
Mas se esta velada confissão não bastasse para nos guiar nas nossas investigações íntimas, teríamos em todo o caso o seu casamento.
Entre tantos fidalgos portugueses que freqùentavam a sua casa (alguns dos quais, infelizmente para ela, corresponderiam por demais ao retrato típico que ela traça de Bernardo da Silveira) um estranjeiro, o conde de Oeynhausen Grovemburgo, que ela quer, que ela escolhe, quem contra vontade do pai, que nem sequer lhe assiste ao casamento, ela aceita para marido. ¿Há mais claro indício do desgôsto que, entre os da sua raça e da sua terra, lhe inundou a alma ambiciosa, exigente, perigosamente exaltada pelo belo?
No prefácio das obras de Leonor de Almeida, a que mais de uma vez nos temos referido, vem a genealogia do conde de Oeynhausen traçada com escrupuloso esmero pelas suas descendentes. De feito o conde descendia de uma casa nobilíssima da Alemanha; era primo co-irmão do conde Schaumbourg-Lippe, o que o não privava de pertencer a essa procissão innumerável de fidalgos pobres, que então enxameava por tôdas as côrtes do mundo, e que ofereciam o seu braço de soldado a todos os que dêle precisassem para combater qualquer causa, fôsse ela qual fôsse, contanto que rendesse para viver, e viver bem.
Leonor de Almeida, escrevendo ao pai do convento de Chelas, ainda, é certo, em tempo do marquês de Pombal, referia-se desdenhosamente a êsse bando de nobres aventureiros, que atrás do conde de Lippe tinham penetrado tambêm em Portugal e ocupado muitos dos importantes postos do exército, agora um tanto estrangeirado como de todo estrangeiro era o seu comandante em chefe.