Citemos, como é nosso costume, a frase textual de Leonor:—«Creio que tem lugar aqui a reflexão assás comum de que o maior despotismo cava o princípio em que se despenha. Estamos a pique de nos engulirem os ingleses ou os castelhanos. Os melhores soldados são os descontentes, e restam para a frente dos nossos exércitos um estranho (o conde de Lippe) e vários bonecos que representam por arames como os da comédia! Bons sucessores dos nossos guerreiros honrados!»
O caso é que um dos tais bonecos a que Leonor se refere aqui, é o conde de Oeynhausen. Êste, na côrte de Portugal, que a esta hora se recomendava pela cegueira da superstição e pelo requinte do beatério baboso, entendeu que o melhor meio de fazer caminho era tornar-se católico.
Por uma felicidade, que nem sempre um narrador consciencioso dos factos do passado topa no seu caminho, fomos deparar no livro do malicioso irlandês Costigan, contemporâneo do conde de Oeynhausen em Portugal, com a cerimónia imponente e luxuosa do seu baptismo.
O conde de Oeynhausen era respeitado na côrte pelos seus talentos militares e pelo bom senso e conhecimento do mundo, e estas qualidades pessoais, juntas à circunstância de pertencer, pelo nascimento, a uma família de príncipes, levavam a rainha a ser madrinha do novo neófito do catolicismo.
Na capela da Ajuda compareceu, pois, para êsse fim, a rainha D. Maria I, acompanhada pelo príncipe seu marido, aquela figura caricatural de que já demos esbôço imperfeito. Ao pé dos dois via-se Angeja, o primeiro ministro, obeso, escuro, com baixo aspecto de onzeneiro judeu e cercado ali mesmo de adulações e cumprimentos que há pouco convergiam todos para a figura majestosa e imponente do exilado ministro de D. José! A figurinha esperta, movediça, maliciosa de Martinho de Melo, lança em tôrno de si os golpes rápidos do seu vivíssimo olhar, emquanto Aires de Sá, magro, emmaciado, com um grande livro de Horas na mão, nem repara no que se passa em tôrno dêle, tão do coração se entrega às rezas e orações ferventes que aquela cerimónia sugere ao seu espírito de católico, tão ardentemente fixa o olhar extático nas imagens que resplendem sôbre o altar, e nas cerimónias rituais celebradas junto dêle. O conde da Ponte, camarista de el-rei e coronel de infantaria, perfila-se perto do príncipe, com a sua face de eunuco, onde não transparece o menor vestígio de barba. Endoideceu-lhe há pouco a mulher que conveniências de família tinham forçado a um casamento odioso, e vinga-se dela, do destino que o flagelou com secretas amarguras, do mundo que o não poupa a epigramas e alusões empeçonhadas e a conjecturas cruelmente indiscretas, fazendo da vida um assunto de rabelaiseana gargalhada, sendo em cada festa aquele conviva que põe todos os outros em convulsões de riso, tendo um dito, uma resposta, um repente, um chiste para cada acontecimento, para cada indivíduo, para cada circunstância, para cada tragédia que passa... O alvo favorito dos seus epigramas e ironias é o cardeal da Cunha, empavezado agora, na sua balofa nulidade, com a importância adquirida na sombra do grande marquês. Foi o conde da Ponte quem, como já dissemos, visitando a livraria do cardeal, composta de onze mil volumes, fêz notar ao bibliotecário que tinha ali sua eminência para servi-lo nem menos de onze mil virgens!
Aos olhos de Costigan,—o soldado aventureiro doido pela fôrça, como os da sua raça,—destaca-se a figura marcial do marquês das Minas, «nascido para homem de guerra e homem de brio», mas tendo naquele meio, degenerado e tão hostil aos fortes, adquirido defeitos que lhe deslustram a instintiva nobreza da alma. Superior a muitos dos seus compatriotas pela inteligência, pela energia e pela instrução, contava-se que êle não duvidara entrar numa conspiração urdida no paço, em que os primeiros fidalgos da côrte se tinham munido de facas de ponta, para assassinarem o marquês de Pombal, caso êle tentasse reter nas mãos o poder que a morte do rei fatalmente lhe arrancava...
A voz do frade dominicano, que se levanta estrondosa, acordando os ecos da capela, arrancava Costigan à contemplação das diversas figuras da côrte, salientes por esta ou aquela qualidade mais característica, e levava-o a concentrar todo o seu poder de atenção nessa espécie de eloqùência.
O frade extasiava-se ante o mérito daqueles que consagram a existência à conversão de herejes e de infiéis. Lembrava quanto era extensa, enorme, incontável a lista dos convertidos às verdades da nossa santa religião. O seu santo patriarca, S. Domingos, outra coisa não fizera, em tôda a sua santíssima vida, senão converter ímpios e infiéis em quási todos os países da Europa, entre os ruins albigenses, os protestantes da Alemanha e da França, os judeus e mouros de Portugal, isto sem usar modo algum de fôrça ou compulsão, como êle prègador afirmava ao seu pio auditório, mas sómente com os estupendos milagres que operava, e com o flamejante raio da sua palavra poderosa. Desde êsses remotos tempos até agora não houvera príncipe, nem monarca, tão zeloso em animar as conversões à Santa Igreja como Sua Fidelíssima Majestade ali presente, por cujos méritos Nosso Senhor e Nossa Senhora a haviam de recompensar amplamente com a paz e prosperidade neste mundo e uma coroa de glória no outro.
—«Deixai, continuava êle, deixai que as innumeráveis conversões, presenceadas por esta augusta côrte, desde o feliz acesso ao trono de Sua Majestade a Rainha, confirmem a verdade do que eu digo—deixai que os sombrios huguenotes da França, os réprobos herejes da Inglaterra, os seguidores alemães do cruel Calvino e do ímpio Lutero, os quais teem sido em número incalculável baptisados dentro destas paredes, declarem quão ferveroso e ardente tem sido o zêlo de Sua Majestade em os fazer renunciar aos seus erros abomináveis, em se professarem filhos dóceis e humildes da única Igreja infalível que existe sôbre a terra.
«Oh! que eu não tenha a voz de um milheiro de anjos (exclama em tom mais férvido o inflamado prègador) para reconhecer dignamente a bondade da Providência em nos enviar tão excelsa rainha, e para agradecer ao meu glorioso patriarca S. Domingos por me haver inspirado a mim o mais humilde, o mais indigno dos seus filhos, com eloqùência, com argumentos, com retórica bastante, para reduzir e vencer o poderoso raciocínio e as bem elaboradas objecções do nobre neófito que estamos a ponto de admitir no seio da santa Igreja visível.»