Neste momento apareceu o neófito, estando já tudo preparado para a cerimónia de o baptisarem. Ao pé da pia baptismal estava el-rei e a rainha, e os olhos de ambos os régios personagens se arrazaram de lágrimas no momento da piedosa celebração.

Tão depressa ela concluíu, a rainha, dirigindo-se graciosamente ao católico recem-nato, enxugou com o seu próprio lenço de cambráia e rendas algumas gotas de água benta que tinham caído sôbre os bofes da sua camisa, dizendo-lhe «que esperava que isso o não constipasse, pois que era uma espécie de água que nunca fazia mal a ninguêm». A côrte inteira seguiu-se a cumprimentá-lo amávelmente, emquanto as lindas vozes da capela real se erguiam para o alto num Te Deum magistralmente executado, que completava a augusta, a pomposa, a fidalga cerimónia.


Em 1779, dois anos depois da sua saída de Chelas, e poucos dias depois do baptismo do conde de Oeynhausen, Leonor dava-lhe a mão de espôsa, surda à voz do pai, que se levantava arrebatada e violenta, contra esta escolha imprevista, esquecida dos mil protestos que havia feito ao marquês de lhe obedecer sempre em tudo, e principalmente no magno assunto do seu casamento, sem atender à pobreza do fidalgo alemão, que estava em completa desproporção com a nobreza do seu nome, e às dificuldades que por êste motivo o futuro fatalmente lhe guardava.

Sem documentos autênticos e positivos que nos elucidem acêrca das impressões de Leonor ao deixar o convento e ao entrar no mundo e na família, não podemos contudo deixar de atribuir a um desgôsto profundo de tudo que em tôrno de si vira, esta resolução tão estranha e rápida. O conhecimento íntimo do seu carácter é suficiente elemento para esta conclusão, que afoitamente perfilhamos.

Os conflitos entre o pai e a filha, seria necessário uma profunda ignorância da psicologia de ambos para os não agourar desde logo; o antagonismo entre ela e o meio social em que ia viver, ressalta naturalmente da leitura das suas belas e generosas cartas, e da análise documentada da sociedade estranha do seu tempo. Que melhor meio de fugir a tão grandes dificuldades do que êsse casamento, que ia roubá-la por muito tempo, talvez para sempre, à influência esterilizante e deprimente da sociedade portuguesa, à ríspida autoridade, outrora tão querida, do seu ulcerado pai?

Numa epístola sua a um amigo, Bocage, mais tarde, referindo-se a êsse gôsto dos países estrangeiros, de que Leonor dá agora a manifestação primeira, lamenta-se de não poder seguir-lhe o exemplo, planeia tambêm fugir ao meio asfixiante que o envolve. Êle tambêm:

... Como a grande, a majestosa Alcipe

Com pejo de existir cá onde há morte,

Ousara demandar no afoito adejo