Plagas imensas onde tudo é vida.
Mas Bocage, mais infeliz que a poetisa portuguesa, morreu amarrado ao ignóbil poste da sua miséria, tendo as mais das vezes de contentar-se com a plebe dos botequins, para lhe dar aquele nectar inebriante do aplauso ruidoso e sincero, sem o qual a sua alma não podia viver. Foram êsses botequins o teatro mais freqùente dos raptos do seu sublime e independente espírito. Leonor fugiu para longe, gozou, conheceu, teve tôdas as sensações exquisitamente delicadas, que um entendimento como era o dela precisava para se desenvolver. A flor, porêm, daquela viçosa fé nas ideas novas, que as suas cartas tão encantadoramente revelam, murchou de todo no ar artificial das côrtes europeias que freqùentou. A Leonor que volta é bem diversa daquela que partiu. E bem pode dizer-se que a fase mais interessante da sua vida acaba aqui! Mas literáriamente o progresso do seu talento é incontestável.
Como a Stael, ela trouxe a Portugal, de volta da Alemanha, a revelação da profunda literatura do norte, então totalmente desconhecida por nós, e o seu gôsto faz-se tão seguro e tão firme que é ela quem muito mais tarde revela Herculano a si próprio, e o induz a seguir a carreira das letras, segundo a confissão, feita pelo eminente historiador, que trasladamos para aqui:
«Aquela mulher extraordinária, a quem só faltou outra pátria que não fôsse esta pobre e esquecida terra de Portugal para ser uma das mais brilhantes provas contra as vãs pretensões da superioridade excessiva do nosso sexo, é que eu devo incitamento e protecção literária, quando ainda no verdor dos anos dava os primeiros passos na estrada das letras.»[96]
Não podemos seguir Leonor, no desenvolvimento do seu génio poético e da sua carreira social tão brilhante. Outros o farão. O seu carácter original que se foi transformando com a idade e com a evolução do tempo, mais tarde outros o hão de descrever com o brilho e a precisão que lhe são devidos. Nós com bastante pezar ficamos por aqui.
NOTAS DE RODAPÉ:
[66] Latino Coelho, História política e militar de Portugal, etc.
[67] Em Bemfica, na casa dos marqueses de Fronteira.
[68] Correspondência inédita.