É por esta ordem de considerações que o cadafalso de Belêm, erguendo-se diante dos nossos olhos, tristes sim, mas conhecedores das circunstâncias que o explicam e da crueldade semi-bárbara dos costumes e da jurisprudência do tempo, não se nos afigura um facto isolado, sem outra significação alêm da que dá o nosso humanitarismo sentimental da actualidade.
Devemos, portanto, emmudecendo a infinita piedade que nos confrange o coração, contemplar as vítimas que ali vieram expirar, à luz de um critério que não é de hoje. Devemos considerá-las, infelizmente, como acusados políticos da peor espécie, réus do maior dos crimes, do que envolvia todos os outros, pois que no tempo de D. José,—o qual foi o representante mais genuíno e mais puro entre nós, dêsse absolutismo monárquico que em tôda a Europa ocidental precedeu e como que preparou, sem o prever nem pressentir, o regímen moderno,—o rei era ao mesmo tempo o pai, o emissário divino, a figura inviolável, impecável e sagrada, cuja mão ungia, cuja dominação exaltava, cujo serviço era tão honroso e glorioso como o do próprio Deus.
Não basta, porêm, ver sómente êste aspecto do complexo assunto. É necessário acrescentar que o julgamento dos fidalgos mais directamente suspeitados, a execução do duque de Aveiro e dos desventurados e porventura inocentes Távoras, o aparato inaudito de que êsse acto de tirania se revestiu, as prisões em que tantos inocentes, reconhecidos por tais, foram apanhados na rêde tenebrosa de uma política implacável, tudo isto, na perspectiva longínqua em que o pensador hoje o contempla, não é mais que um lúgubre, um terrível e sangrento episódio dêsse duelo de morte, que o marquês de Pombal, o último português que soube o que era ter vontade, travou furiosamente com uma ordem de cousas em que êle via a desgraça de Portugal.
Aqueles desgraçados expiavam, ali, não sómente o seu crime, suposto em todos, dizem alguns, real em quási todos, asseveram outros,—mas principalmente, e é esta a face cruel mas terrívelmente lógica do facto—os crimes longos, os crimes imperdoáveis de uma casta inteira, contra a qual se insurgia o espírito impiedoso de Pombal, atribuindo-lhe o estado de decadência da nação, que êle ambicionava erguer como um novo Lázaro do chão da morte...
¿Tinha razão o marquês em atribuir completamente à fidalguia e à fradaria portuguesa a desgraça em que achava êste país?
Não tinha. Os frades e os fidalgos ignorantes, soberbos e ociosos eram já produtos e não causas de uma decadência moral e intelectual, que vinha de longe, de muito longe; deviam os seus defeitos a circunstâncias talvez fatalmente consubstanciadas no próprio destino de Portugal, talvez feitas da própria essência do seu organismo.
Mas o marquês tinha a sciência do seu tempo, o que não se lhe deve levar a mal, porque, como tão bem diz um grande pensador, o débil alcance da inteligência humana, e a brevidade da nossa vida comparada à lentidão do desenvolvimento social, conservam-nos a imaginação, sobretudo no que respeita às ideas políticas, inteiramente sob a dependência estreita do meio em que habitamos. «A cabeça mais forte da antiguidade, o grande Aristóteles, de tal modo foi dominado pelo seu século, que não pôde conceber uma sociedade sem ter por base a escravidão»[13].
Assim tambêm o marquês de Pombal, não conhecendo o recente segrêdo das leis sociológicas, julgava que a reconstrução de uma sociedade é um acto de pura mecânica. Desbravar o terreno, ou deitar por terra as edificações carunchosas que o atravancavam, transportar para longe o entulho que se amontoara dessas ruínas em grande, e proceder imediatamente, livre de obstáculos e de peias, ao seu trabalho de arquitecto namorado da ordem rectilínea e da simétrica regularidade, parecia-lhe uma tarefa tão legítima quanto realizável. ¿Que fôssem instituìções ou fôssem homens os que embaraçavam a sua obra, que lhe importava? Para êle eram simplesmente obstáculos. Tinha uma concepção das cousas muito diversa da que hoje reina. Nunca lhe poderia entrar na cabeça que a sociedade fôsse, como o indivíduo, um organismo. Não percebia que, da dissolução a que o corpo social tinha chegado, podiam surgir, em resultado de irredutíveis leis orgânicas, novas combinações e novas formas de vida, mas nunca operar-se aí uma cura radical, uma transformação impossível.
Os factos provaram-lhe ainda em vida, na sua dolorosa, na sua angustiada velhice, que êle errara nas apreciações e nos pontos de vista. Mas o desmoronamento, quási completo na parte política, administrativa e moral da sua obra, não o pôde esclarecer ainda assim a respeito das causas que o determinaram.
Ainda pela consciência e pelo entendimento humano não passara aquele abalo violento, sob a influência do qual nós todos pensamos hoje, tanto amigos como adversários do novo regímen.