O marquês não estava em suficiente avanço do seu século para compreender que os fenómenos políticos se regulam, como os outros, por leis naturais!

A reconstrução civilista e burguesa que êle sonhara tinha de realizar-se, não no carcomido, no gasto, no anémico Portugal, mas nas outras nações latinas, depois da luta intensa e prolongada contra o regímen anterior, depois da demolição longa e laboriosa, feita pela escola negativa e crítica do século, depois de um interregno de desordem, no meio do embate, sem método preconcebido, de contraditórias fôrças inconscientes, porque nenhum progresso político ou social deixou de ser precedido por êsse período de cáos e de surda germinação. É êle que prepara a nova ordem de cousas, favorecendo de um lado o desenvolvimento dos elementos que virão a constituí-la, estimulando por outro as faculdades reorganizadoras da sociedade pela experiência cruel dos males da anarquia[14].


Tão favorável era então o ensejo para que a mão aspérrima de Pombal caísse com todo o seu pêso enorme sôbre a nobreza mais alta da côrte,—que houve muito quem aventasse a hipótese de que tal emboscada não existira, ou antes fôra simulada pelo astuto ministro.

Á posteridade, porêm, não parecem duvidosos, nem o atentado contra D. José, nem a culpabilidade do duque de Aveiro.

O embaixador francês, que a êsse tempo estava em Lisboa, dizia para a sua côrte, que o duque de Aveiro—carácter imperioso e duro, espécie de relíquia feudal perdida num tempo que já não estava em harmonia com as suas altivas pretensões, e num país onde o feudalismo existira nas ideas sem nunca ter existido própriamente nas instituìções—que o duque de Aveiro era formalmente detestado.

Nascera filho segundo, e fôra destinado para a mitra; mas a loucura amorosa do irmão mais velho, cuja fuga para Espanha com D. Maria da Penha de França, casada com Luís de Almada, deu brado naquele tempo, fê-lo logo marquês de Gouveia, e duque de Aveiro mais tarde, quando, contra uma nobre família de Espanha, ganhou a demanda que disputava à sua casa os bens e os títulos daquele ducado.

A boa fortuna exaltara-lhe a soberba, fizera-lhe do orgulho indomável uma arma perigosa. Irritavam-no até à epilepsia as audácias reformadoras e niveladoras do ministro e a subserviência e docilidade do rei. Tentou, portanto, matando êste, aniquilar o ilimitado poder daquele.

Pelo contrário a família Távora, verdadeiramente típica da lhana e afável fidalguia portuguesa, apenas intratável em questões de precedência, de tratamento, de formas, etc., era estimada e querida em Portugal.

Mas à veia satírica da espirituosa marquesa não escapara a fraqueza mais flagrante do ministro de D. José, aquela ânsia de provar com documentos a sua fidalguia, o que não é deveras permitido a um homem que em tanta maneira excedia o nível do seu tempo, e cujo alto espírito o devia pôr ao abrigo de tais aberrações de entendimentos medíocres.