Ficaram na tradição os chasques de prosápia orgulhosa com que ela se desforçava da decadência do poder da sua casta, e do advento dessa outra potência irresistível de que Sebastião José de Carvalho foi um dos mais genuínos e mais célebres e prestigiosos representantes, e que êle no entanto parecia renegar com as suas ideas fantásticas acêrca da própria fidalguia.

Desta loquacidade mordaz de mulher ofendida à cumplicidade do nefando regicídio vai um abismo, e conquanto a história dê uma causa, mais íntima, mais justificável quási, à suposta cumplicidade dos Távoras, pois se contou, e escreveu, que a marquesa filha tinha as boas graças do rei, e êsse escândalo causava a desolação de sua honesta sogra, ainda assim um triste ponto de interrogação subsiste em face dêsse processo misterioso, mais instaurado e vencido para meter espanto e terror a uma dada ordem social, do que escrupulosamente conduzido para levar a luz de uma convicção inabalável à consciência dos que assistiram ao desenvolvimento das suas peripécias tremendas.

Durante alguns dias de suspensão e de indeterminada angústia ecoou vagamente no público a notícia do crime, sem que um passo sómente fôsse dado para a busca e prisão dos réus. Todos êles foram colhidos com extraordinária facilidade, quando Sebastião José de Carvalho, acordando de súbito do fingido torpor em que pareceu ficar paralizado, mais uma vez demonstrou por um golpe de irresistível mestria, a sua implacável vontade e a sua fôrça pronta e sagaz.

Depois de três meses de um dêsses soturnos silêncios, cortados de ansiedade sombria, que tanta vez precedem os cataclismos da natureza e os da sociedade, no dia 13 de Setembro de 1758 foram cercadas as casas do marquês de Távora, D. Francisco de Assís, o vice-rei da Índia das festas teatrais e das pomposas cerimónias; do conde de Atouguia D. Jerónimo de Ataíde; do conde de Óbidos D. Manuel de Assís Mascarenhas; de D. Manuel de Sousa Calhariz; do conde de Vila Nova, Manuel de Távora; do desembargador António da Costa Freire, de muitas outras pessoas suspeitas; de todos os jesuítas do reino, e afinal, o que principalmente importa para a nossa história, do marquês de Alorna, D. João de Almeida Portugal, pai de Leonor, gentil e diserto cavaleiro de vinte e cinco anos, que fôra ou estava para ser nomeado embaixador em Paris, e cujo crime baldadamente se procura em todos os documentos do célebre e crudelíssimo processo.

O duque de Aveiro, de todos aqueles em quem incontestávelmente recaem as mais graves suspeitas de haver perpetrado o crime, ou de o ter feito executar por mandatários seus, estava na sua quinta de Azeitão, nessa Sintra da Outra Banda, onde as grandes famílias portuguesas do século XVII e do século XVIII tinham tão lindas, pitorescas, majestosas e artísticas vivendas, hoje reduzidas a ruínas abandonadas, a ruínas ignóbeis, que nenhum luar de saudade espiritualiza e doura, de que nenhum culto reverente consagra a tradição melancólica.

Diz-se que êle se preparava para fugir, tendo sabido do movimento de tropas que se notara em Aldeia Galega, por onde inesperadamente passara um corpo de cavalaria, e tambêm das prisões de Lisboa, cuja notícia soara com a rapidez misteriosa com que os casos graves se propagam.

De todos aqueles a quem o ministro omnipotente desejou prender só lograra escapar José Policarpo de Azevedo, cuja trágica odisseia Camilo Castelo Branco há de narrar com a sua linguagem de tão máscula e inimitável elegância, de tão grave e impressionadora tristeza.

O marquês de Alorna não soube nunca a que fatalidade inexplicável devera o achar-se envolvido no horrendo trama. O duque de Chatelet na Viagem em Portugal, que fêz, muitos anos depois dos acontecimentos, e em que miúdamente se refere a muitos actos da administração de Pombal, diz que foi atribuída a cumplicidade do marquês ao facto, aliás absolutamente inocente, de êle haver emprestado uma espingarda de caça ao filho do duque de Aveiro, que no próprio dia do atentado contra a vida do rei, lh’a tinha pedido.

¿Mas quem não vê hoje, na distância em que estamos, que o fim de Pombal era muito diverso daquele que então lhe atribuíam as suas vítimas desgraçadas?! O que êle queria era castigar, humilhar, amordaçar, inutilizar, vencer essa fidalguia da côrte, que a cada instante se erguia como um obstáculo, como um tropêço diante dos seus planos de audaz reformador da sociedade portuguesa. Áspero de génio, inflexível de vontade, de natureza cruel como todos os condutores de homens (nem com índole diversa êles o seriam), pouco se importava com a inocência ou com a culpa dêsses fidalgos arrogantes, que ousavam defrontar-se com êle em permanente oposição. O que pretendia era destruí-los de vez, ou emmudecer para sempre os que por ventura lograssem escapar à vindicta da lei.

O marquês de Alorna, generoso, altivo e franco, falando alto e bom som com a sua hombridade de fidalgo, e sabendo o que dizia porque tinha ilustração e talento, raros então na sua classe—com certeza que devia ser dos mais notórios na oposição ao homem que todos julgavam inimigo da nobreza, e pronto a cercear-lhe os privilégios e as regalias. Pagou com uma prisão de dezoito anos êsse crime de rebeldia mental.