Emquanto se efectuava em Azeitão a captura do poderoso duque de Aveiro, e na côrte a dos outros suspeitos, reinava em Lisboa um terror súbito, ressurgido após três meses de espectativa já quási adormecida, porque tinham aparecido, afixados em tôdas as esquinas, dois decretos, um dos quais datado de 9 de Dezembro, em que se narrava, na enfática e declamatória linguagem do tempo, o atentado de que el-rei nosso senhor tinha por milagre escapado, anunciando-se exposta às vistas do público, na cocheira do paço, a carruagem onde el-rei ia, quando lhe foram disparados os tiros; e outro, datado de 13 do mesmo mês, em que se tomavam as mais vexatórias disposições para que os culpados não pudessem fugir, ordenando várias precauções administrativas e políticas, que a tirania do tempo de sobejo legalizava.
No dia 14 de Dezembro foi presa e conduzida ao convento das Grilas a marquesa de Távora D. Leonor. A marquesa D. Teresa, nora desta e amada pelo rei a ponto de a poupar impudentemente em todo o processo, foi conduzida para o convento das comendadeiras de Santos, onde se conservou com uma tença régia, e rodeada de cómodos e confortos até à morte.
A duquesa de Aveiro foi para o Rato[15], a condessa de Atouguia para Marvila; a marquesa de Alorna e as suas duas filhas, crianças adoráveis de seis e sete anos foram para Chelas.
Criou-se uma junta ou tribunal chamado da inconfidência, presidido pelos três secretários de estado, e o lúgubre processo correu envolto em profundo segrêdo, conhecendo-se apenas, que seguia o seu curso, pelas prisões que vinham, de vez em quando, sobressaltar Lisboa, fazer tremer de horror a mais qualificada fidalguia da côrte, e povoar de altos dignitários e de cortesãos, outrora validos, os fortes do Tejo e os cárceres do Estado.
Ainda hoje se não sabe o que no seio da Junta se passou. Previu-se, porêm, desde logo que ia mais longe, do que primitivamente se podera supôr, o alcance e a significação dêsse processo, eivado da terrível pecha de todos os processos políticos em que os réus já vão responder ao tribunal préviamente sentenciados. Tal foi o sistema do absolutismo triunfante em tôdas as fases da sua história, em todos os pontos em que o seu poder se exerceu; tal foi o sistema do jacobinismo violento da convenção, e do comité de salut public na França revolucionária, e o sistema da França napoleónica, no processo do joven duque de Enghien—o sangue de Condé!
A 13 de Janeiro de 1759, por uma madrugada nevoenta e triste «por entre castelos pardacentos de nuvens esfumaradas, que a espaços saraivavam bátegas de aguaceiros glaciais», a cadeirinha da marquesa de Távora D. Leonor chegou ao largo de Belêm, onde se erguia o cadafalso em que tôda a sua família ia expirar.
O fúnebre cortejo constava primeiramente de um esquadrão de dragões, em seguida dos ministros criminais que tinham julgado o processo iníquo, e que vinham a cavalo, uns com a toga, outros de capa e volta. O corregedor da côrte, atrás dêsses, era quem precedia a caixa negra entre dois padres, onde a marquesa se dirigia ao suplício.
Alas de tropa cercavam o préstito.
«Á volta do tablado postaram-se os juízes do crime, aconchegando as capas das faces varejadas pelas cordas da chuva. Do lado da barra reboava o mugido das vagas que rolavam e vinham jofrar espumas no parapeito do cais. Havia uma escada que subia para o patíbulo. A marquesa apeou-se da cadeirinha, dispensando o amparo dos padres. Ajoelhou no primeiro degrau da escada, e confessou-se por espaço de cinqùenta minutos. Entretanto martelava-se no cadafalso. Aperfeiçoavam-se as aspas, cravavam-se pregos necessários à segurança dos postes, aparafusavam-se as rôscas das rodas. Recebida a absolvição, a padecente subiu entre os dois padres a escada, na sua natural atitude altiva, direita, com os olhos fitos no espectáculo dos tormentos. Trajava de setim escuro, fitas nas madeixas grisalhas, diamantes nas orelhas e num laço dos cabelos (tinha sido presa ao sair de um baile na embaixada inglesa), envolta numa capa alvadia roçagante.