«Assim tinha sido presa um mês antes. Nunca lhe tinham consentido que mudasse a camisa nem o lenço do pescoço.
«Receberam-na três algozes no tôpo da escada, e mandaram-na fazer um giro no cadafalso para ser bem vista e reconhecida.
«Depois, mostraram-lhe um a um os instrumentos das execuções, e explicaram-lhe por miúdo como haviam de morrer seu marido, seus filhos e o marido de sua filha. Mostraram-lhe o masso de ferro que devia matar-lhe o marido a pancadas na arca do peito, as tesouras, as aspas em que se haviam de quebrar os ossos das pernas e dos braços ao marido e aos filhos, e explicaram-lhe como era que as rodas operavam no garrote, cuja corda lhe mostraram e o modo como ela repuxava e estrangulava ao desandar do arrocho. A marquesa então sucumbiu, chorou muito ansiada, e pediu que a matassem depressa. O algoz tirou-lhe a capa e mandou-a sentar num banco de pinho no centro do cadafalso, sôbre a capa que dobrou devagar, horrendamente devagar. Ela sentou-se. Tinha as mãos amarradas e não podia compor o vestido que caíra mal. Ergueu-se e com um movimento do pé concertou a orla da saia. O algoz pôs-lhe a mão no lenço que lhe cobria o pescoço.—Não me descomponhas—disse ela, e inclinou a cabeça, que lhe foi decepada pela nuca de um só golpe»[16].
Fazemos a longa transcrição do suplício da marquesa, porque, depois de Camilo ter deixado, fundida em bronze, esta escultura de soberbo horror, parecia-nos artístico sacrilégio qualquer tentativa de imitação ou de aproximação. Isto que aí fica escrito é definitivo, é inultrapassável. Ao lê-lo as carnes arrepiam-se, e aquele vento de que fala a escritura passa sôbre as nossas cabeças, pondo-nos os cabelos em pé.
A carniceria continuou lenta, medonha, infindável, sob o nevoeiro sinistro e o plúmbeo céu triste e calado.
Depois da marquesa de Távora, o primeiro a morrer entre suplícios foi José Maria Távora, o filho segundo dela, criança de vinte e um anos, mimoso pagem louro, cuja beleza de efebo comovia os corações mais duros. Levava o seu lindo traje preto de cortesão, e meias de sêda côr de pérola. Supremo requinte de graciosa e juvenil garridice!
Quantos sonhos em flor desabrochariam sob aquela fronte de adolescente...
Front pâli sous des baisers de femme,
...que tanta vez se iluminara com a esperança da glória ou se espiritualizara de fugaz melancolia em caprichosos e vagos devaneios de Cherubin.
E no entanto êle, que não conhecia nem de nome a maldade ou o ódio, teve o seu corpo aspado, quebrado, esmigalhado pelos ferozes instrumentos do mais bárbaro suplício, em castigo de um crime que não sonhara em cometer.