Atrás dêle morreu o irmão mais velho, o marquês Luís Bernardo, espôso daquela a quem a crónica escandalosa do tempo atribuía a cumplicidade num adultério régio.

Depois o conde de Atouguia, seu cunhado, e os três réus vilões, que apareceram, descalços, em mangas de camisa, e que até ali, na promiscuidade do sangue e do suplício tiveram, como insígnia que os separasse dos seus fidalgos companheiros, aquele ignóbil desalinho que parecia roubar-lhe à morte a dignidade...

Depois de um intervalo em que os carrascos descansaram, seguiu-se o suplício do marquês de Távora Francisco de Assis, o velho general encanecido no serviço público, e do duque de Aveiro, talvez de todos o único culpado, e por fim o de António Álvares Ferreira, o sacrílego executor do crime, pelo qual todos morriam, o que dera na sagrada pessoa de el-rei nosso senhor,—à hora em que êle regressava ao paço da Ajuda depois de uma nocturna excursão de galhofeiro o amoroso Júpiter—o tiro que lhe havia rasgado a preciosa carne do seu braço.

Durou dez horas o nefando espectáculo a que uma turba enorme, mosqueada de medonhas caras negras de olhos fuzilantes, assistia com mórbida, perversa e brutal curiosidade.


Estremece-nos a alma de piedade e de pavor ao relembrar que há século e meio apenas era, não direi sómente permitido, mas, o que é mais, sancionado pela jurisprudência humana tamanho acervo de inolvidáveis horrores. E isto não só neste canto da península, neste limite extremo da Europa, afastado então de todo o convívio scientífico com o resto do mundo, mas ainda na própria França, onde pela mesma época, pouco mais ou menos, a canivetada de Damiens—um doido!—em Luís XV era castigada por um suplício muito mais atroz, se em tal inferno pode haver gradações, e pelo menos muito mais fecundo em requintadas invenções de horror, porque nas feridas abertas a tenazes rubras, até chumbo derretido lhe deitaram, esquartejando-lhe depois o miserável corpo atado a quatro cavalos robustos incessantemente chicoteados pelos algozes praguejantes[17]. ¿E sabem quem ali, naquela cidade onde reinava o idílio pompadour e as graças pastoris de Watteau e de Bernis assistia ao medonho espectáculo canibalesco? Era, nas janelas da praça de Gréve, alugadas por alto preço, tôda a nobreza e tôda a alta finança. Era la cour et la vile em pêso, que viera, com a ferocidade que tanto aproxima as civilizações apodrecidas da barbarie extrema, saciar-se perversamente daquela tortura e daquele horror!... Nesse ponto, Portugal menos civilizado, deixara à ignóbil turba-multa das praças e das vielas o privilégio de tão doce vista! A França não! Eram as suas marquesas de altos penteados voluptuosos, de riso cristalino, o riso que ecoava pelos salões esplêndidos de Versailles, que iam ali cevar-se de sensações violentas e de frémitos de agonia! Eram as suas financeiras opulentas, as suas actrizes afamadas, a élite intelectual daquele mundo falso e garrido, que aplaudia a tragédia repugnante e atrocíssima, achando já sem sabor para o seu gôsto embotada a inspiração soberba do Cid ou as ardentes objurgações de Hermione e de Fedra...


Os adversários do marquês de Pombal atribuem exclusivamente ao ministro de D. José a culpa desta execução, que fêz naquele tempo estremecer de horror a Europa, sobretudo porque eram da mais alta fidalguia os executados; mas o historiador imparcial terá de reconhecer que, embora a índole naturalmente dura do marquês não recebesse do trágico acontecimento a impressão que ela devia inspirar-lhe, embora lhe houvesse sido possível obstar à morte cruel de alguns dos padecentes, a verdade é que a responsabilidade do espantoso caso cabe tanto ao ministro e ao rei, que não perdoaram, como aos juízes abominávelmente subservientes que subscreveram a sentença e julgaram o processo, como ao tempo, aos costumes relaxados e crueis simultâneamente, à completa incapacidade que ainda então havia em todos os povos, de dar à vida humana, à dor humana a suprema importância que nós hoje, bem mais felizes, aprendemos a dar-lhe.

¿Tão duro como era Pombal, tão inflexível e enérgico de vontade como êle, podia um ministro de hoje mesmo ao abrigo da lei escrita, permitir tais crimes?

Não deminuiu talvez a sôma de bem e de mal arbitráriamente dividido pela humanidade, mas deminuiu de um modo extraordinário a possibilidade em que ela está de expandir à vontade os seus instintos crueis. Se, como diz Spenser, o progresso se faz muito mais sentir na inteligência que na moral, em todo o caso a inteligência domina bastante o homem social para amordaçar permanentemente nêle a fera primitiva. Se não lucra o princípio abstracto da moral, lucra certamente e muitíssimo a civilização, a vida do homem, a segurança dos indivíduos, a ordem das sociedades[18].