Quem, pois, tentar arrancar ao livro do passado uma das suas páginas e convertê-la em história, não poderá fazer juízos absolutos, nem sujeitar a um critério que não seja relativo os acontecimentos e os homens que descrever e julgar. O tempo estabelece entre os mesmos factos passados em momentos diversos as diferenças mais profundas.

O crime de hoje pode ter sido a razão de Estado de hontem. A crueldade implacável de um homem do antigo regímen não tem a significação e o valor que as nossas actuais ideas lhe dão. O passado está cheio de factos que para nós são crimes e que foram nêle heroicidades. ¿Que lista enormíssima de algozes, desde Torquemada, não conta a inquisição, e no entanto foram criminosos todos êsses homens que obedeceram ou julgaram obedecer a uma lei de salvação pública e de política suprema? Quantas execuções sumárias, quantas crueldades inauditas e atrozes não ordenaram Gama, Albuquerque, Pacheco e Pizarro, os nossos heróis peninsulares! ¿E mereciam êsses homens sentar-se então no banco de ignomínia em que hoje se punem crimes tais?

Deve notar-se, entre parêntesis, que sendo a fraqueza de vontade um dos característicos da alma portuguesa, os homens que entre nós mais destacam, é pela dureza de aço do seu querer que se distinguem! Exemplos: o infante D. Henrique, que deixou morrer o irmão em Fêz, mas não cedeu um ápice do que entendia necessário à grandeza da pátria que ilustrou; todos os capitães terríveis que acabamos de citar, e cuja vida está cheia de actos de uma suprema e implacável fôrça; finalmente Pombal, em quem a vontade é positivamente a faculdade predominante.

De resto não se pode ser político, isto é, exercer esta imoral sciência, que nenhum esfôrço de coração, nenhuma alta aspiração espiritualista conseguirá tornar nobre e bela, senão escravizando sob a pressão de uma energia brônzea as fraquezas que nos circundam!

Foi sempre êste o sistema dos grandes políticos.

Luís XI foi um dos príncipes a quem a França mais deveu. Aniquilou o feudalismo, destruiu o poder dos grandes vassalos, cuja indisciplina selvagem se opunha à centralização e à grandeza da pátria francesa! Quantos crimes na vida de Luís XI, que a posteridade se não atreveu a julgar com demasiado rigor, vendo que êle obedecia a uma razão poderosa do bem pátrio e de salvação civilizadora, vendo sobretudo que se êle matou, perseguiu e rebaixou os poderosos, levantou os humildes, e protegeu contra a tirania dos grandes o seu pobre povo oprimido!

D. João II fêz julgar tambêm—com que irrisório julgamento!—o duque de Bragança, e apunhalou o duque de Vizeu, e no entanto Portugal considera-o um grande rei, e Izabel a Católica chamava-lhe o homem, achando nêle, por excelência, o tipo da energia e da prudência régia.

Tôdas as execuções de Richelieu foram feitas, como as de Pombal, ao abrigo da jurisprudência do seu tempo. Chalais, Marillac, Montmorency, Bouteville, todos responderam perante tribunais criados para o caso, de comissões e juntas nomeadas à maneira do tribunal da inconfidência, e todos foram implacávelmente sacrificados à política monárquica e centralizadora do ministro.

Anular o terrível efeito da dispersão de fôrças políticas do país, robustecer a monarquia, destruindo a nobreza, poder intermediário entre ela e o povo, e que a neutraliza muitas vezes, preparar inconscientemente, pelo advento e a exaltação da classe média, a democracia de hoje—e é esta a obra que durou, de tantas empreendidas pelo marquês de Pombal—tal foi a sua missão, superior nalguns pontos à sua própria vontade, da qual êle nem sempre teve a consciência definida e clara.

Richelieu tambêm teve um único fim: criar a monarquia una, poderosa, que depois foi a de Luís XIV. Tambêm êle—¿e quem lh’o havia de vaticinar que o não indignasse furiosamente?—foi um predecessor terrível do terrível Robespierre, um preparador inconsciente da revolução burguesa de 89, e nesse ponto as ideas dos dois ministros e o resultado final da sua obra parecem-se imensamente.