No entanto Richelieu e Pombal morreram sem remorsos do que haviam feito, julgando ter obedecido à divisa que era de ambos: Salus populi suprema lex est.
Esta mesma doutrina atroz, mas como nenhuma eficaz, salvou a França, pelo terror, da invasão estrangeira, da desmembração e da ruína.
¿Quem pode aplaudir os medonhos crimes do terror? ¿E quem não sabe que o povo francês lhe deveu a salvação?
A linha recta, a inflexibilidade terrível, a implacável resolução são os predicados e tambêm os defeitos dêsses políticos sombrios, dêsses sinistros estadistas—para quem o fim justifica todos os meios—e o indivíduo em si não passa de um zero, e só tem importância a sociedade, exactamente como para a implacável natureza só tem valor a espécie.
Não nos espanta por isso, conquanto nos encha o coração de lágrimas, essa execução dos fidalgos, que está na lógica da férrea política pombalina.
Mais nos repugnam—porque não tiveram a mínima influência política,—as longas clausuras, as lentas dores inflingidas friamente em dezoito longos anos de prisão a tantos inocentes!
O marquês de Alorna foi um dêles e em Chelas a espôsa e as duas pequeninas filhas, agradeciam a Deus, de mãos postas, diante do altar onde a extrema piedade ortodoxa de uma, e o poético instinto religioso das outras as prostravam, a graça infinita que Deus lhes fazia, em conservar ao menos com vida, embora no desamparo e no frio, e na privação de tudo, embora nas masmorras da Junqueira, aquele querido ausente, que podia, tão bem como os outros, ter expirado em tratos no cadafalso de Belêm. É a sombra tenebrosa e gigantesca dêsse cadafalso, em cuja história, por isso mesmo, nos demorámos tanto, que vai enublar a mocidade, que vai exaltar intensamente a viva imaginação de Leonor de Almeida, a heroína dêste livro.
NOTAS DE RODAPÉS:
[1] Memórias históricas e genealógicas dos grandes de Portugal, por D. António Caetano de Sousa. Nestas memórias se encontra a genealogia da família de Távora, de Assumar, etc.
[2] Estas praças que fazem parte das Novas Conquistas, ainda hoje pertencem à corôa portuguesa. Alorna fica na província de Pangim. Está edificada a fortaleza sôbre o rio Mhaporá, que ali toma o nome Alorna. Terá hoje 1:668 habitantes, 308 fogos e 63 praças de guarnição.