XLIX.
Irmanay-vos, correy mais cuydadosas,
Seja vosso correr mais repetido,
Naõ cuideis, que vos choro caudalosas,
Porque deis desaffogo a meu sentido:
Que como nas memorias rigorosas
Vossa causa lamento, que hey perdido,
Se talvez mitigaes hum sentimento,
Naõ tem valôr nas perdas vosso alento.
L.
Oh! corraõ com valor vossas violencias
Por duplicar incendios a meu rogo,
Que naõ fora querer sentir ausencias,
Se vos chorára só por desaffogo:
Que posto deis alivio ás inclemencias,
Naõ podeis dar alivios a meu fogo;
Que como sou das penas avarenta,
Qualquer alivio vosso me atormenta.
LI.
Correy livres, correy, que amor ordena,
Sejais a meu rigor ancia penosa,
Que naõ comprais alivios a huma pena,
Quando chegais a ser paga forçosa:
Que pois amor por força me condena
Tributar-vos por divida custosa;
Mal podeis mitigar o mal, que tenho,
Quando sois do que devo desempenho.
LII.
Naõ me póde obrigar outro motivo,
Se naõ chorar-vos só por naturesa,
Que quer, que seja amor por excessivo
Tributo natural, o que he finesa:
Que como a seu querer sujeita vivo,
Rendida a seu querer captiva, e presa,
Do pranto, que saudosa me convinha,
Se naõ pode isentar a affeyçaõ minha.
LIII.
Em vós sentir agora mais penosas,
De ser mudas razoens faço argumento,
Que quando naõ chegais a ser queyxosas,
Naõ limitaes a dor ao sentimento:
Que foreis só lisonjas enganosas,
Mas naõ crueis verdugos ao tormento,
Quando na voz queixosa, que formára,
Lastimas a meus ays solicitára.