XLIV.

Ay! cadûcas bellezas, lhes dizia;
Ay flores! se queyxava enternecida;
Que sendo vossa vida de hum só dia,
Muitas horas contais na vossa vida:
Mas oh! de minha dor mór agonia,
Oh morte em menor vida repetida!
Que como em soledades só discorro,
Nem conto instantes, porque sẽpre morro.

XLV.

E vós Rosas no mimo de huma Aurora
Lograis de vossa adôrno a pompa bella,
Que talvez por firmar vossa melhóra,
Tivéstes no nascer tão boa estrella:
Mas oh! que no pesar, que chóro agora,
Nestes fogosos ays, que o peito anéla,
Escolhe minha estrella em triste forte
Por pena a vida, por lisonja a morte.

XLVI.

Vós plantas, que sentis mudavel erro,
Cifrando em cada folha hum pensamento,
Se Dezembro lamenta vosso enterro
Abril em flor vos dá dobrado alento:
Mas oh! q̃ em meu sentir, e em meu desterro
Eternisa hum rigor meu sentimento;
Pois quer amor na sorte, que me ordena,
Se alimente huma pena de outra pena.

XLVII.

E tû bruto penhasco inhabitado,
Tosco sepulcro de huma clara fonte,
Es agora de flores matizado,
Idolo de crystal, gala do monte:
Mas oh tyranna dor! que meu cuidado
Hoje lamenta o mal, que chorou honte,
Vendo, que teu terror com bruto aviso
Honte foy Polifêmo, hoje he Narciso.

XLVIII.

Mas oh queyxas paray, paray cuidados,
Paray, façamos tregoas pensamento,
Que dos males talvez communicados,
Póde nascer desar ao sentimento:
Correy da alma pedaços distillados,
Dizey lagrimas minhas meu tormento;
Minhas naõ digo bem, que juntamente
Perdi tudo no bem, que chóro ausente.