XXXIX.
Entre flores inquire o doce amado,
Presente em cada flor o considéra,
E dando hum breve encanto a seu cuidado,
Busca nas flores quanto em flor perdêra:
Corre de flor em flor, de prado em prado,
Tópa só magoas, donde gosto espéra;
Que foraõ seu praser: e seus favores,
Perda choradas, quando apenas flores.
XL.
Procûra em cada planta, o que anelava,
Porque no seu tormento engano escolha;
Mas oh! que em seu pesar escrito achava
Liçoens para sentir em cada folha:
Já nas liquidas pérlas, que chorava,
Penhascos, plãtas, prado, e folhas molha,
E na lembrança já de hum bem perdido
Lhe interrõpe hum gemido outro gemido.
XLI.
Qual o menino fica enternecido,
Entre perplexidades pasmadinho,
Quando no verde prado entretenido
Lhe foge o gosto atraz de hum passarinho:
Já soluça, já pasma esmorecido,
Já busca cada flor, cada raminho,
Já melindrosos ays, mimoso alento
Apôs o passarinho leva o vento.
XLII.
Tal Ignez na penosa tyrannia
Entre flores inquire o doce amado;
Mas foy lisonja só da fantasîa,
Pois mais se nega hum bem, quãdo buscado:
Já queixosa das flores se desvia,
Já nas queyxas diverte o seu cuidado,
E nos alentos da alma, com que espira,
Já soluça, já pasma, já suspira.
XLIII.
Na margem de huma fonte se encostava,
Que já clara correo com seus favores,
E se delles travêssa murmurava,
Em lagrimas agora exhála amores:
Ás plantas, aos penhascos se queixava,
Outra vez já seu mal contava ás flores
Onde nos eccos, que respira o monte,
Suspira o valle, porque chora a fonte.