XXXIV.
Já se remonta Pedro a seus retiros,
E já de morte em morte Ignez discorre,
Que como entrega a vida a seus suspiros,
Quantas vezes suspira, tantas morre:
O coraçaõ sentindo acérbos tiros
Pelos olhos sangrado em crystaes corre;
Mas oh! que no sangrar-se em vaõ se cansa,
Porque em cada sangria huma alma lança.
XXXV.
Qual na secca vergóntea desfolhada,
Que despojo restou da tempestade,
Se lamenta em requebros lastimada
A casta Rola posta em soledade:
Soluça, pasma, e geme agonisada,
Chora, suspira, anéla em crueldade,
Que seu pesar lhe tem no peito unîdos
Rigores, magoas, lastimas, gemîdos.
XXXVI.
Tal lastimada chora Ignez saudosa,
No seu mesmo tormento sepultada,
Nos desvélos do dia cuidadosa,
Nos descuidos da noite desvelada;
Já se queixa em suspiros lastimosa,
Fórma razoens dos ays agonisada:
Que fez para queixar-se em seus retiros.
Embaixadores da alma seus suspiros.
XXXVII.
Oh! quanto foy de ti teu Pedro amado,
Formosa Ignez, mas inda mais sentido;
Pois sendo grande a gloria de logrado,
Hoje he mayor a magoa de perdido:
Foy teu prazer á pena apensionado,
He teu pesar na pena desmedido:
Entaõ foraõ de Rosas teus favores,
Agora saõ de Lirios teus amores.
XXXVIII.
Já nos braços da Aurora, que assomava,
Renascido chorava o novo dia,
Quando Ignez saudosa entaõ negava
A seu triste pesar a companhia:
A solidaõ do campo se apartava,
Onde só lamentava, e só gemia;
Porque mais no rigor de seus retiros
A piedade faltasse a seus suspiros.