XXIX.

Mas nota, Ignez formosa, esta fineza,
A fazer impossiveis offrecida,
Pois que contraminando a natureza,
Teu mesmo amor me mata, e me dá vida:
Mas como amor notou nessa belleza
Os impossiveis só de merecida,
Quiz tomar por razaõ força infallivel,
Obrar por alcançá-la outro impossivel.

XXX.

Bem vês agora, Ignez, como abrasado
Nos vivos holocaustos de meu peito,
Meu coraçaõ consagro a teu cuidado
Em victimas de lagrimas desfeito:
Agora alcançarás, como alentado
Todo me sacrifico a teu respeito,
Pois chega a consagrar-te em viva calma
Sangue do coraçaõ, reliquias da alma.

XXXI.

Sucçeda á Primavera o secco Estio,
Á serena manhaã tarde calmosa,
Seja manso regato, quem foy rio,
Sejaõ seccas reliquias, quem foy Rosa:
Seja, quem Cravo foy, cadáver frio,
Seja quem foy Jasmim, cinza olorosa
Seja tudo á mudança em fim sujeito,
Que amor firme será dentro em meu peito.

XXXII.

Nessas gentîs madeixas da beldade,
Em cuja luz do Sol o Sol se nega,
Onde feito piráta da vontade
Nas crespas ondas sempre amor navega:
Nessas, digo, captiva a liberdade
Em refens minha fé por fé te entrega:
Nellas deixo por fim com meus alentos
Alma, cuidados, vida e pensamentos.

XXXIII.

A Deos delicia minha, a Deos cuidado,
A Deos Senhora, a Deos, que amor cõsente,
Que parta em fim nas magoas sepultado
Se partir posso de mim mesmo ausente:
A Deos, que amor nos tinha decretado
Esta ausencia cruel, forçosa, urgente;
Mas ay! formosa Ignez, q̃ em vaõ me queixo:
A Deos, q̃ em fim me parto, em fim te deixo.