XXIV.
Qual quando na manhaã naufrága o dia
Nos undósos crystaes, que o Céo desata,
O Jasmim desmayado se agonîa
Dos acháques da gotta, que o maltrata:
Em desares trocando a galhardia,
Icaro já nas agoas se retrata,
O que lisonja foy taõ prateada,
Se no prado jasmim, nas ondas nada.
XXV.
Tal Ignez já de lagrimas banhada,
De seus olhos gentîs mortaes desares,
Que quiz a natureza acautelada
Que o Occaso de dous Sóes fosse dous mares.
Exhalava de todo agonizada
O suspiro final a seus pesares:
Que com vir entre lagrimas undosas,
Inda na bocca achou maré de rosas.
XXVI.
Já Pedro em fim rendido a seu cuidado,
A dôr quer disfarçar a seu retiro;
Que como o coraçaõ tem já quebrado,
Hum pedaço lhe traz cada suspiro:
E como em fim no peito agonizado
Sente da mortal frecha o novo tiro,
Notando Ignez no pranto de seu rogo,
Exhála em agoa, quanto bebe em fogo.
XXVII.
Naõ chores, diz, formosa Ignez, agora
Ficar ausente sem partir commigo,
Que se es vida da minha, que te adora,
Na alma te levo por viver comtigo:
Naõ pertendo ausentar-me hoje, Senhora,
Supposto que partir-me em fim prosigo;
Que se as almas trocar amor consente,
Nem tu só ficas, nem me parto ausente.
XXVIII.
O corpo só se ausenta, a alma naõ parte,
Que em fim naõ vivo de potencias suas,
Que como me alimento só de amar-te,
Bastaõ para viver memorias tuas:
E porque amor nos tiros, que reparte,
Fulmina contra mim frechas mais cruas;
Quando a vida me rouba, outra me ordena,
Que fora em fim matar-me a menor pena.