XIX.
Cá me fica outra vida, que naõ passa,
Com que padeça morte repetida,
Que quer amor tyranno, que renaça
Huma vida das cinzas de outra vida:
Que como taõ crueis penas me traça,
Como me traz em fogo convertida,
A acabar, outra Feniz, me condena,
Morrendo em cinzas, renascendo em pena.
XX.
Ah! quem cuidára, amor, que meus amores
Fossem fingidas sombras mentirosas?
Ah! quẽ cuidará, amor, que em teus favores
Fossem mais as espinhas, do que as Rosas?
Mas depois, que triunfo a teus ardores,
Foraõ de Marte as armas generosas;
Taõ guerreyro ficaste, ufano, e forte,
Que bem pódes matar a propria morte.
XXI.
Mas pois forçosamente me condena,
A que vos ausenteis, ah tyrannîa!
Deyxai, deyxai Senhor, deyxai-me a pena,
Porque só della quero a companhia:
Na noite mais escura, ou mais serena
(Que para ausentes nunca nasce o dia)
Chorarey, permittindo-o minha estrella,
Mais do que a saudade, a causa della.
XXII.
Nas remontadas penhas, nas visinhas
(Se restar a meus ays penhasco possa)
Vos buscaraõ, Senhor, lagrimas minhas,
Minhas se póde ser, sendo a alma vossa:
De meus annos a flor entre as espinhas
Passarey, sem perder esta fé nossa;
Mas antes perderâõ seu bruto alento
O mar, o fogo, o ar, a terra, o vento.
XXIII.
Mas oh! que he tal a dor de meus retiros,
E taõ firme na ley da tyrannîa,
Que vendo, que me assistem meus suspiros,
Talvez delles me roube a companhia:
Mas inda mais, e mais acérbos tiros
Contra mim fulminar amor porfia;
Pois sem dar attençoens á minha queyxa,
Por mais só me deyxar, sem mim me deyxa.