XIV.

Ay! que chegas, oh dia! em que amor tira
Duas almas de hum peito, oh noite fria!
Oh noite, digo, porque a quem suspira,
Fóge a luz, morre o Sol, acaba o dia:
A bocca, de que hum ay, outro ay, retira,
Jà cansando, mais bayxo repetia,
Paray Senhor; mas hum soluço ardente
Suffóca o par, repete o ay sómente.

XV.

Paray, torna a dizer, meu gosto amado,
Gloria desta alma, em quanto gloria tinha;
Mas ay alivio meu! ay meu cuidado!
Como podeis parar, se gloria minha!
Mas se destîna o Céo, e manda o Fado
Esta alma castigar, que amor mantinha,
Deixai-me a vossa, porque a sorte ordene,
Mais almas tenha, porque assim mais pene.

XVI.

Mas naõ, que he contra amor esta porfia:
Mas naõ, que deyxo amor nisto aggravado:
Muitas almas naõ quero, que sería
Repartir o tormento a meu cuidado:
Mas se a pena permitte a companhia
Nesta ausencia cruel, oh triste Fado!
Antes que a dor ma roube da partida,
Levai-me, vida minha, a minha vida.

XVII.

Só com vosco, Senhor, irá segura,
Sem que mortal achaque lhe aconteça;
Porque talvez do Fado a sorte dura
Fóra deste meu peito a desconheça:
Nem poderá temer minha ventura,
Que sombra de pesar vos entristeça;
Pois farey no tormento mais esquivo
Correr por conta da alma o sensitivo.

XVIII.

Se só para viver na ley de amante
Forçosa seja a vida repetida;
Ay! Senhor, que naõ póde ser bastante
Para viver ausente huma só vida:
Porém se amor de vidas taõ possante,
Huma nos deo para ambos repartida,
Postoque a dôr entre ambos se accommóda,
Melhor vos partireis levando-a toda.