IX.

Quantas vezes, Ignez, no pensamento
Este desár notaste a teus favores?
Quantas vezes, Ignez, na maõ do vento
Os viste, e vês agora, e verás flores:
Tanto nas affeiçoens, gosto avarento,
Este pesár sentiste em teus amores,
Que naõ posso dizer, que neste emprego
Estavas, linda Ignez, posta em socego.

X.

Entre os braços de Pedro, ardẽte Fragoa,
Se encosta Ignez sem vida, e sem sentido,
Que multiplîca a dôr, e dobra a magoa
Lograr presente o bem, que he já perdido:
Dos olhos sólta dous chuveiros de agoa,
Oceànos de neve, onde Cupîdo
Quiz da belleza já colhendo as velas,
Chegasse a tempestade até as estrellas.

XI.

Qual em berços de purpura vistosa,
Delicias da manhaã, da tarde empresa,
Dos melindres de flor enferma a Rosa,
Desmayado o verdôr, murcha a lindesa;
Pois a que foy de Abril pompa lustrosa,
Livro do amor, emblema da bellesa,
Perde a graça, por vêr que o Sol lhe talha
Do mesmo carmesim gala, e mortalha.

XII.

Tal do fogo de amor na immensa calma
A côr Ignez perdeo, que amor ordena,
Os desmayos, que tinha impressos na alma,
Trasladasse no rosto a viva pena:
Já despojo da dôr, da magoa palma,
Com respirar de flor, arde Açucena,
Exhála nova dôr ao pensamento,
Em saudosos ays o doce alento.

XIII.

Ay! cadûco prazer, diz lastimada,
Esperança de hum bem, doce tormento,
Ay! que por verde murchas apressada,
Primavéra do amor, da dor portento:
Ay! melindrosa flor agonizada,
Despojado Jasmim de qualquer vento,
Que quando nasce traz na mesma alvûra
Gala, mortalha, berço, e sepultura.