IV.

A que nos dotes da alma taõ possante,
Discreta, grave, terna, e generosa,
Que da mesma bellesa sendo Atlante,
Tinha por menór prenda o ser formosa:
Nos donaires do talhe taõ galante,
Nos alinhos da graça taõ vistosa,
Que topando na culpa de Narciso,
Fora sem culpa seu discreto aviso.

V.

Mas qual o passarinho descuidado,
Lisonja mais gentil da tenra idade,
Foy das maõs do menino aprisionado,
Que lhe roubou no laço a liberdade:
Que quando delle mais galanteado,
Exprimenta no mimo a crueldade:
E quando a côr das pennas lhe contenta,
Nas que lhe tira, mais lhas accrescenta.

VI.

Tal Ignez na manhaã dos ternos annos,
Nas primeyras Auróras da esperança,
Deo nos laços de amor doces enganos,
Do vendádo rapaz linda vingança;
Mas os golpes da Parca deshumanos
A belleza por flor em flor alcança,
Exprimentou na sempre amarga sorte
Por maõs do Deos do amor armas da morte.

VII.

Eraõ gentil emprego a seus cuidados
As finesas de Pedro, que a beldade
Nelle soube trazer aprisionados
Sceptro, corôa, vida, e liberdade:
Entre ambos tinha amor já taõ ligados
Os soltos alvedrîos da vontade,
Que foy nelles baldado, e foy perdido
Nascer Antéros por crescer Cupido.

VIII.

Mas oh tyranna dor amor inventa!
Forçosa foy de Pedro a dura ausencia,
Atropos da alma, que da pena isenta,
Nella sabe sentir mortal violencia:
Como preso, partir-se Pedro intenta,
E sente na alma, Ignez, nova inclemencia,
Que quer a sorte, pois amor ordêna,
Onde naõ chega a morte, offenda a pena.