Amigo, e Venerador de V. M.
O P. Joaõ de Gouvea

SAUDADES DE DONNA IGNEZ DE CASTRO.

I.

Era na meya idade, a q̃ chegava
Em fraguas de Zafir o Sol, q̃ ardia,
e nas asas do tẽpo, q̃ passava,
Icaro de seus rayos era o dia
Quando pois com as chammas se abrasava,
Que morrer incendîdo entaõ queria,
Sendo por renascer com novo alarde,
Em cinzas de rubim Féniz da tarde.

II.

Na lisongeira planta se enlaçava
Cortez o vento com gentil porfia,
E nos jardins a Rosa, que encalmava,
Em berços de esmeralda adormecia:
A simples avesinha se banhava
No murmúreo correr da fonte fria,
Renovando na vista o doce alento,
Narciso nos crystaes, Orfêo no vento,

III.

Mas Ignez só, que por penar vivia,
Naufragava em soluços cada instante,
Ignez, aquella Ignez, que amor fazia
Por lhe dobrar as magoas mais constante:
Aquella, em cujas graças competia
Ser formosa, discreta, e ser amante,
Em cujas prendas naõ tiveraõ parte
Artificios da industria, invençoẽs da arte.