LIX.
Menos dor, menor danno em fim tivéra,
Menos cruel sentira o meu cuidado,
Quando neste rigor, que padecera,
Me podéra esquecer do que hey logrado:
Mas ay! que nesta dor outra me espera,
E hum mal outro me traz apensionado;
Pois chego a padecer em meu sentido
O mal, que passo, o gosto, q̃ hey perdido.
LX.
Bem conheço, que posso na lembrança
Vossas prendas lograr, meu doce esposo,
Mas o bem, que se perde na esperança,
Fica, quando lembrado, mais penoso:
Mas nesta triste dor, dura esquivança,
Se me duplica amor mais rigoroso;
Pois só quer meu sentido avincular-se,
Para mais padecer, a mais lembrar-se.
LXI.
Assim chorava Ignez, e assim gemia,
Mas oh tragica dor! rara estranhesa!
Que já tópa nas maõs da tyrannia
Armas sempre mortaes contra a bellesa:
Nas maõs de dous tyrannos já se via,
Entre crueis espadas, tosca empresa!
Mas que Rosa no campo Aurora molhas,
A que naõ falte a vida, e sóbrem folhas?
LXII.
Paray, detende a furia procellosa,
Paray, paray, detende o bruto alento:
Que contra o fresco mimo de huma Rosa,
Ah! que sobeja hum Sol, e basta hũ vento?
Mas ay! discreta Ignez, Garça formosa,
Remonta agora mais teu soffrimento,
Que temo, linda Ignez, teus lindos brios
Accrescentem coraes a tantos fios.
LXIII.
Qual nas tecidas silvas da espessûra,
Labyrintho de espinhas intrincado
Com balîdos se queyxa da ventura
O simples cordeyrinho aprisionado:
Já soluça em melindres com ternûra
Das maternas delicias apartado:
O que mimos achou na branda hervinha,
Acha mortal rigor em cada espinha.