LXIV.

Tal lastimada Ignez troca em gemidos,
Quantas vozes no peito articulava,
Em quanto os dous algoses sementidos
As maõs lhe prendẽ, com que amor matava:
Já fugindo os alentos aos sentidos,
O soluçar as vozes lhe embargava:
Mas oh! que amor lhe deo no pensamento
Razoens ao pranto, voz ao sentimento.

LXV.

Ay tyrannos crueis! oh sorte dura!
Entre suspiros, diz agonizada,
Que delicto commette a formosura,
Com que possa a bellesa ser culpada?
Oh! deyxai-me esta vida em pena escura,
Se me quereis a morte dilatada;
Que nesta triste dor taõ repetida
Menos me mata a morte, do que a vida.

LXVI.

Oh! suspendey sentença taõ penosa,
Mitigay por hum pouco a crueldade,
Que naõ podeis dar morte rigorosa,
Que possa matar mais, que a saudade:
Mas já que minha dôr menos piedosa,
Vos naõ póde causar nova piedade,
Naõ me roubeis meus filhos, taõ queridos,
Unica prenda só de meus sentidos.

LXVII.

Ay! charas prendas minhas taõ queridas,
Reliquias de amor, da alma pedaços;
Ay! como sentireis em mim perdidas
As mimosas delicias de meus braços:
Mas pois naõ póde ser entre homicidas
Lograr, amores meus, vossos abraços,
A Deos, ficai-vos já gostos amados,
A Deos alma, a Deos vida, a Deos cuidados.

LXVIII.

Mais quiséra fallar enternecida,
Mas oh! indigna acçaõ de hum peito forte!
Hum tyranno cruel, torpe homicîda,
Nos fios de hum punhal lhe teçe a morte:
Inclîna o lacteo collo amortecida,
Avassallada já da infausta sorte,
Exhála a vida o corpo de alabastro,
Feneçe amor com Donna Ignez de Castro.