LVI.
Oh bem, que pouco duras possuido!
Só logras algum ser, quando esperado;
Nos molestos receyos de perdido
Tyrannizas o gosto de alcançado;
Oh sonhada lisonja do sentido!
Oh mais terrivel ancia do cuidado!
Flor, que apenas se vê, quando se chora
Enteada do Sol, filha da Aurora.
LVII.
Aquelles olhos donde o Sol furtava
Os melhores thesouros da vaidade,
E em lusidas capellas consagrava
Dous altares Amor a huma beldade:
Aquelles, cuja luz interpretava
Os occultos archivos da vontade,
Estes mesmos erarios da bellesa
Deixa a perder de vista huma feresa.
LVIII.
Oh debil gloria lisonjeiro ensayo!
Babél da vida, lingua do escarmento,
Desfeita sombra do mais breve rayo,
Quebrado vidro da mais tibio vento:
Jasmim, que pasma de qualquer desmayo,
Cravo, que morres de teu mesmo alento!
Oh gloria humana! em fim gloria sonhada,
Vida, Sombra, Jasmim, ou Cravo, ou nada.
LIX.
Aquella bocca, donde a mais lustrosa
Se divisava purpura incendida,
Em quem se vio nascendo a bella Rosa
Com menos folhas, quando mais partida
Agora só se occulta lastimosa
Em desmayos de neve amortecida;
Mas que prenda não tem que formosura,
Muito menor a vida que a ventura!
LX.
La pretende nascer Cravo lusido,
Mas em casa gentil botão fechado;
Porque aquella manhaã, que o vê nascido,
O chorasse primeyro amortalhado:
Quem, ô purpurea flor, taõ presumido?
Mas quem, Cravo gentil, taõ lastimado?
Que lhe chegue a tecer a naturesa
A mortalha primeyro, que a bellesa.