LI.
Mas em fim: que me queixo dos rigores,
Com que talvez amor me tyrannisa,
Quando mais martyrisaõ seus favores,
Onde qualquer lembrança os eternisa:
Pois quando apenas se alentaraõ flores,
Passaraõ quasi flor, que se agonìa;
Por isso a minha queixa mais se ordena
A sentir seu desdem, que a minha pena.
LII.
Oh duro amor! oh fragoa dos gemidos,
Prisaõ da vida, Argel da liberdade,
Martyrio da alma, guerra dos sentidos,
Encanto doce da melhor vontade!
Teus favores só foraõ conhecidos
Por gentîs prendas da mais tenra idade,
A naõ serem primeyro teus favores
Seccas espinhas, que animadas flores.
LIII.
Que cuidados naõ causas Jovem cego?
Que rigores naõ dás ao pensamento?
Que delicias naõ roubas ao socego?
Que lisonjas naõ finges ao tormento?
A que peitos naõ dás custoso emprego?
A que vida naõ tiras doce alento?
De que genios naõ reinas? de que idades?
De que prendas gentìs? de que beldades?
LIV.
Quem me disséra, quando Ignez lograva
Nos carinhos gentîs de seus favores,
Quando nelles amor idolatrava,
Para poder talvez morrer de amores!
Quem me dissera, logo, que aspirava
Hum cadúco praser a taes rigores!
Quem me disséra então, que da ventura
Era mortal delicto a formosura!
LV.
Quem disséra, que os laços de alvedrios,
Gentîs madeixas, onde a naturesa
Repartio liberal por tantos fios
Os melhores extremos da bellesa,
Esses agora, que acabarão brios,
Se arrastão já bandeiras da tristesa?
Mas que muito, se nunca em seus ensayos
Nenhum por Louro se isentou de rayos.