XLVI.
Mas ay! que as plantas no desdẽ da idade,
Mas ay! que as flores no rigor de hũ vento,
A naõ serem Jasmins na brevidade,
Naõ seriaõ Perpetuas no tormento:
Só tu terrivel ancia da saudade
Eternizas agora o sentimento;
Porque quando matar-me amor ordena,
Me deixas vida, com que o corpo pena.
XLVII.
Quem soubéra cuidar, que a mais crescida
Tyrannîa cruel da dor mais forte
Fosse, quando nas perdas de huma vida
Impossiveis sentisse de huma morte:
Mas he rigor da magoa repetida
Por industria fatal da iniqua sorte;
Porque quando talvez matar-me trata,
Por topar-me sem vida, naõ me mata.
XLVIII.
E se fora da vida roubadora
Esta sorte fatal, tormento esquivo,
Tivera só por pena matadora
Qualidades de grande no intensivo:
Mas naõ, que como amor pertende agora
Cumulár intensoens ao sensitivo,
Naõ quer, que amor me mate, pois durára
Muito menos a pena, se matára.
IL.
Agora alcançarás, prenda querida,
Os rigores de amor na minha sorte,
Pois agora me quer roubar a vida,
Só por ma naõ tirar primeyro a morte:
Mas ay! que a pena se duplîca unida:
Mas ay! que a magoa se eternisa forte;
Pois que vejo na dor do mal esquivo,
Que naõ posso morrer, porque naõ vivo.
L.
Mas agora na pena, que me entrega,
Vejo, que quer a dôr, e a mais aspira,
Que padeça na morte, que o mal nega,
E que pene na vida, que amor tira:
Aqui verás, Ignez, a quanto chega
Esta pena de amor, que amor, conspira;
Pois agora naõ sey, no que discorro,
Se vivo ausente, nem se ausente morro.