XLI.
Ferîdo o coraçaõ tribûte em fogo
Undósa parte, derretido alento,
Se liquida sangrîa ao desaffogo,
Lisonjeira lancêta ao sentimento:
Se excessivo queixúme, ardente rogo,
Se verte em nuvem, se distille em vento,
Naõ fique planta, que a pesár do espanto,
Naõ morra em fogo, naõ se afogue em prãto.
XLII.
Sejaõ linguas dos olhos mudas agoas,
Intérpretes da dor tristes retiros,
Eloquencias do peito vivas fragoas,
Razoens do coraçaõ ternos suspiros,
Rhetóricas da pena ardentes magoas,
Elegancias de amor dobrados tiros:
Emmudeça a razaõ, que só parece,
Sabe tambem sentir, quando emmudece.
XLIII.
Distille o coraçaõ, duplique o vento
Ethnas a seu pesár, agoas ao rogo;
Morra por glorias de seu mesmo alento
Troya nas ondas, e Narciso em fogo:
Incendios solicîte ao sentimento,
Diluvios multiplìque ao desafogo,
Sendo de seu rigor o mesmo ensayo,
Nas causas nuvem, nos effeitos rayo.
XLIV.
Naõ cresça lirio, que naõ sinta os tiros,
Clavél naõ gire, que naõ pasme em fragoas;
O que Féniz naõ for entre os suspiros,
Morra já Faetonte sobre as agoas:
Sejaõ vozes as magoas nos reriros,
Que melhor nos retiros se ouvem magoas,
Se se póde na dor, que amor ordena,
Ouvir a magoa sem sentir a pena.
XLV.
Naõ reste planta, que se atreva a tãto,
Que naõ murche dos ays enternecidos,
Rosa naõ fique, que, a pesár do espanto,
Se naõ séque ludibrio dos gemidos:
Em fim, duplique a dor, prodûza o pranto
Lastimosos naufragios dos sentidos;
Seja neste pesár, nesta esquivança
Charybdes da alma o Cabo da esperança.