XXXVI.
Mas ainda assi paray, que se melhora
Nestas lagrimas minhas vosso augmento:
Se professais correntes, como agora
Sabeis livres fugir ao sentimento?
Paray, naõ murmureis, que nisso fora
Muito mais conhecido vosso alento;
Olhay que se condena, ou se aventûra,
A naõ fazer remansos quem murmûra.
XXXVII.
E vós paray nas queixas amorosas,
Galantes cortesans da soledade,
Que naõ fazeis os pontos de queixosas
Quando dais tantas falsas na saudade:
Paray, digo, a meus ays, paray piedosas,
Paray nos quebros, tende a liberdade,
Aprendereis a ser nestes retiros
Hum Féniz cada qual de meus suspiros.
XXXVIII.
Paray gentîs emblemas da vaidade,
Flores, digo, paray, paray saudosas,
Naõ bebais presunçoens, que a pouca idade
Sereis de meus incendios mariposas:
Aprendey dos alinhos da beldade,
De vossa vida, digo, a ser piedosas;
Que sempre foy nas regras da ternûra
Muy capaz de liçoens a formosura.
XXXIX.
Paray féras tambem nesses ruidos,
Guardas do monte, archeiros da ferêsa,
Fazey caso das penas, que os bramîdos
Argumentos parecem da brutêsa:
Isto basta, paray, que os entendidos
Pódem talvez notar vossa estranhesa:
Minhas queixas ouvi, que alivio fora,
Quem naõ póde fallar, me ouvisse agora.
XL.
Paray broncos penhascos, que o Céo cria
Para pardos Atlantes dos retiros,
Se vos vence huma liquida porfia,
Como já resistis a meus suspiros?
Mas oh! que digo! páre a covardia,
Exhále o peyto, multiplique os tiros,
Duplîque amor, e dobre o sentimento,
Agoa nos olhos, nos suspiros vento.