XXXI.

Oh quem me déra já ser assistido
Dos penhascos talvez, que o monte cria!
Mas quem naõ tem razoens para sentido,
Naõ póde ter nas magoas companhia:
E hum rigor por ausencias padecido,
Com nenhuma presença se alivîa;
Que quem nas ancias, que padece hũ triste,
Juntamente naõ pena, naõ lhe assiste.

XXXII.

E menos me permitte esta esquivança
Ser de vós assistido, lindas flores,
Pois por gentis emblemas da mudança
Jeroglyphico sois de meus amores:
E se produzis glorias na lembrança,
Mal podeis assistir a meus rigores;
Que naõ faz assistencia nos retiros,
Quem motiva principios aos suspiros.

XXXIII.

Nem já, féras, talvez vossa brutesa
Resta para topar branda piedade;
Mas como póde ser, se a naturesa
As noticias vos néga da saudade?
E no fatal rigor de huma tristesa,
Nos efeitos mortaes da soledade,
Naõ póde ser a dor compadecida,
Sem que seja na causa conhecida.

XXXIV.

Nem sereis, avesinhas, no saudôso
Companheiras gentîs a meus retiros,
Que diversos sujeitos no penoso,
Tem diversas as magoas nos suspiros:
E bem se vê, que o mal todo invejoso
Mais a mim, do que a vós fulmina os tiros;
Pois nûm rigôr fatal hum, damno esquivo,
Mais mata o racional, que o sensitivo.

XXXV.

E menos podeis ser a meus sentidos
Deleitoso carinho na saudade,
Lisonjeiros arroyos, que atrevidos
Solicitaes dos olhos a vaidade:
Mas como? se a meus ays, e a meus gemidos
Multiplicaes melhor a soledáde;
Pois em vós retratado, e descontente,
De mim mesmo me vejo estar ausente.