XXVI.
Ay triste solidaõ! ay pena ingrata!
Quanto menos cruel foras agora,
Se permittindo a magoa, que maltrata,
Naõ roubáras a gloria, que te adóra:
Mas esta dôr naõ fora, que assi mata,
Rigoroso pesár, se assi naõ fora;
Pois naõ se méde o mal de quem suspira,
Pelo que tem, senaõ pelo que tira.
XXVII.
Mas inda mais avante acompanhada
Desta dôr outra pena já me alcança;
Pois na magoa da perda lamentada
Os alivios me rouba da esperança:
Mas como, se naõ fora eternisada,
Maltratára das glorias a mudança?
Que o pesár sem remedio padecido,
Mata porque hade ser, e porque ha sido.
XXVIII.
Nem pódem mitigar esta saudade
Assistencias de amor, porque resiste
Outra nova razaõ da soledade,
Que nas distancias desse amor consiste:
Que como aquelle objecto da vontade
Hoje feito impossivel naõ me assiste,
Sendo vinculo amor entre subjeitos,
Naõ tendo extremos, naõ produz effeitos.
XXIX.
Só deixára de ser eternisada
Esta dor, mas só fora divertida,
Se a memoria da pena imaginada
Naõ passára a ser pena padecida:
Só razão de praser, quando lembrada,
Essa gloria tivera, que he perdida,
Se sendo assi passada na lembrança
Soubéra ser futûra na esperança.
XXX.
Nem queixumes de lagrimas sentidas
Alivios pódem ser nesta saudade,
Que sendo partes da alma desunidas,
Saõ causas naturaes da soledade:
Porque quando nos olhos advertidas,
Procuraõ fugitivas liberdade,
Aquella mesma vida, que me alenta,
Tambem nellas partida se me ausenta.