XXI.
E já nas solidoens entretenido
Interpréta lisonjas aos cuidados,
Pois vay vendo nas flores advertido
Morraes prendas, alinhos mal logrados:
Mas apenas se lembra enternecido
Daquelles Soes agora imaginados,
Quando já vacilante se discorre,
Aqui pasma, allî geme, acolá morre.
XXII.
Qual Girasol gigante, que atrevido
A beber rayos amoroso aspira,
Se bem, que entre zeloso, e presumido
Desdenha ufâno, temoroso gira:
Mas vendo apenas, que o galân querido
Com disfarces de nacar se retira,
Porque se vê das glorias todo ausente,
Languido pasma, cuidadoso sente.
XXIII.
Em fim rompe nas queixas amorosas
Agora Pedro, quando as vê sentidas,
Que naõ pódem livrar-se de penosas,
Quando sabem fugir a ser ouvidas:
E só discretas saõ, se rigorosas,
As que menos se presaõ de entendidas;
Que já por isso Pedro se as pertende,
He só porque a si mesmo naõ se entende.
XXIV.
Ay! gloria minha, diz, gloria sonhada!
Minha te chamo, quando assi perdida,
Que se naõ tens as veras de lograda,
O desár naõ padeces de esquecida:
Como gloria maltratas, se lembrada?
Como molestas gloria possuida?
Na pósse logras ancias de fallivel,
Na memoria rigores de impossivel.
XXV.
Como soube deixar-me assi frustrado
Este rigor, que gloria se habilita,
Quando me fez mayor, que o mesmo Fado,
Mayor, que amor, mayor q̃ a mesma dita?
Quem me disséra então, que este cuidado
Fosse Rosa, que apenas se acredita,
Quando se vê nas maõs da naturesa
Trophéo da dôr, sangria da bellesa.