XVI.

Assi vivendo morre, quando amante;
Assi morrendo vive, quando ausente;
Que se morre, pois pena por distante,
Vive tambem, pois ama, porque sente:
Mas em fim naõ passâra tanto ávante
Nas finesas amor, que fora urgente
Acabar-se na vida, se roubára,
E taõ fino naõ ser, se naõ matára.

XVII.

Mas quem diria agora o que sentiste
Nesta, Pedro, de amor menos ventura,
Dos carinhos ausente, que já viste
Brotar melindres, produsir brandûra?
Oh! que dirias, Pedro, quando abriste
Aquelles dous conceitos da ternûra!
Os olhos digo; mas amor ordena
Parte das queixas interpréte a pena.

XVIII.

Já no pardo capuz, roupas saudosas
Emmudecida a terra se encobria,
E nos hombros das nuvens tenebrosas
Ataúdes de sombra o tempo erguia,
Consagrando com tochas lachrimosas
Mudas exequias ao defuncto dia,
Dando claros sinaes ao Jovem louro
Em torres de Zaphir os signos de ouro.

XIX.

Quando a favor da vida o sentimento
Novos em Pedro reproduz gemidos,
Sendo sumilher da alma o novo alento,
Que lhe corre as cortinas aos sentidos:
Mas já liquida dôr, claro tormento
Se acredita nos olhos advertidos,
Que quem nas penas solitario mora,
Só lhe resiste vivo, em quanto chora.

XX.

Solicita retîros, em que unidas
Se acreditaõ de finas as saudádes,
Que saõ mais primorosas, se sentidas,
Naõ permittem motivos a piedades:
Tributaraõ labéos de mal nascidas;
A naõ passarem móstra de vaidades,
Quando naõ foraõ mais, que eternisadas,
Solitarias, occultas, retiradas.