XI.

Assi passaõ da mágoa a ser espanto
Os dous ayos do mimo, os dous Cupìdos,
Narciso cada qual do proprio pranto,
Phaetontes em fim de seus gemidos:
Se foraõ gala da bellesa, em quanto
Eraõ gentîs desvelos dos sentidos,
Lastimas ficaõ já da tenra idade,
Culpas de amor, delictos da beldade.

XII.

Quaes simples avesinhas, que roubadas
Ás lisonjas de Abril, mimos de Flora,
Dos maternaes alentos apartadas,
Suspira cada qual, cada qual chóra:
As que foraõ do campo idolatradas
Oraculos do Sol, linguas da Auróra,
De si mesmas agora occulta fragoa,
Concebem pena, quando abortaõ magoa.

XIII.

Mas já funesta voz, turbado alento
Por linguas de metal enrouquecido
Formava o Semideos monstro violento,
Gigante pela fama conhecido.
Aquelle, cujo aládo atrevimento
Se remonta veloz, e taõ subido;
Porque nelle talvez o mundo veja
Voarem pennas a pesár da inveja.

XIV,

La fez a túba lastimoso effeito
Nos alentos de Pedro, que em suspiros
Os mais dos eccos lhe interpréta o peito
Dobrando mágoas, renovando tiros:
Quando apenas em fim na dôr desfeito
O coraçaõ se pasma, que em retiros
Suffocado talvez da intensa calma,
Se isentou de correr por conta da alma.

XV.

No combáte fatal deste desmayo
(Lastimoso parenthesis da vida!)
Tribûta vivas ao mortal ensayo,
A sentinella da alma já vencida:
Naõ morre Pedro, naõ, que aquelle rayo
Foy lançada de amor, que repetida,
Se pertende matár, a quem suspira,
Menos o mata, se lhe a vida tira.