VI.
Que pesáres, que penas, que rigores
Amor formáva, cada qual sentia,
Qual nos gemidos soluçando amores,
Em carinhossas magoas confundia:
Qual desmayado no tapiz das flores,
Se recosta trophéo da tyrannia,
Notando aquelle peito, cujo enfeite
Lhe troca em pena, quanto foy deleite.
VII.
Quantas vezes fallando enternecidos,
Em soluços lhe pára o doce alento!
Quantas na voz do monte repetidos
Os saudosos ays lhe torna o vento:
Quantas a ser naufragio dos sentidos,
Se deriva em chrystaes o sentimento;
Pois quer a dor, querendo amor agora,
Chórem dous Soes a falta de huma Auróra.
VIII.
Alentado o rigor, duplîca em tiros,
Se bem globos de fogo, esphéras de agoa;
Naõ resiste Clavêl, que nos retiros,
Naõ morra espûma, e naõ feneça fragoa:
Multiplica-se o vento nos suspiros,
Fogósos rayos lhe despede a magoa:
Já naõ sabe nascêr, nem brilhar Rosa,
Que naõ pasme defuncta mariposa.
IX.
Nem tribûtaõ lisonjas aos sentidos
Nestas mudas razoens, que amor ordena,
Que sujeitos amantes desunidos,
Aquelle, que mais chóra, esse mais pena:
E se lagrimas saõ nos mais sentidos
Almas do coraçaõ, bem se condena
Qualquer a mais sentir; pois he patente,
Que quem mais almas tem, muito mais sẽte.
X.
A solidaõ de Pedro imaginada,
Lhe accende as almas, lhe distilla os peytos,
Que nem morrêra Ignez, se retirada,
Naõ sentira distante os seus effeitos:
Que como seja amor, muito apertada,
Se gentil, uniaõ de dous sujeitos;
Quando matar hum delles amor trata,
Se desunir os dous hum só naõ matta.