Ja da fatal tragédia retiradas
As restantes ruinas da feresa,
Ficaraõ só no cãpo idolatradas
Hũas breves reliquias da bellesa:
Ausente Pedro, sem que as mal logradas
Lamentasse memorias da firmêsa:
Taõ dittoso nas magoas se discorre,
Que morre ufâno, sem saber que morre.

II.

Queixosa em fim feneçe a galhardia,
Solicîta queixûmes a ternûra,
Vendo jà no desdem da tyrannia
Menos cruel a Parca, que a ventûra:
Que como qualquer dote se avalia
Por symptôma fatal da formosúra,
Aquella mesma ditta, que entre sortes
Cumûla prendas, mutiplîca mortes.

III.

Á ventura se queyxa, que a beldade
Fosse causa da perda, porque unida
Naquellas prendas da melhor idade,
Fez acabar rigôr, o que era vida;
Mas a Parca tyranna por vaidade
Solicita bellesas advertida;
Porque dellas talvez se naõ cuidára,
Morre fora huma prenda, e só matára.

IV.

Só suspiraõ, só choraõ lastimosas
(Que naõ pára nas queyxas a finesa)
Aquellas, que restaraõ só piedosas
Troyas do amor, reliquias da bellesa:
Aquellas, digo, prendas lachrimosas,
Dous Infantes gentîs, a que naturesa
Deyxou com vida, porque em seu tribûto
Fosse a morte da flor vida do fructo.

V.

Qual nos braços da planta mais visinha
Em roupas de rubîm, cama olorosa,
Sentindo huma lanceta em cada espinha,
Sangrada no jardim fenece a Rosa:
Consagrando-se flor, quem foy Rainha,
Em vivos holocaustos sanguinosa,
De cujas cinzas restaõ por grinalda
Reliquias de ouro em cófre de esmeralda.